quinta-feira, 9 de abril de 2009

O Velho Pery

O Velho Pery é um sujeito altamente peculiar. E dirige muito mal. O senhor de voz arrastada e modos um tanto descontados de graça acaba de estacionar estranhamente o carro na entrada da sua casa. Diz que vai pegar o jornal do dia na caixinha de correio. Entretanto, um motorista desavisado dos hábitos matutinos do morador-leitor quase arranca a porta do carro que se abriu abruptamente. O motorista buzina protocolarmente e o Velho Pery manda passar por cima, então. E ainda faz um belo gesto de conotações interessantes pra essa manhã feia de ventinho gelado.
Felizmente, acabou agora o tour automobilístico. Estamos de novo na casa de minha avó. O carro de meu pai foi deixado pra consertar, minha passagem de volta já foi comprada e o Velho Pery está ajudando com os preparativos do almoço. Não sei o que a minha avó viu nesse senhor. Falta a esse senhor pouco afeito ao banho aquela nobreza dos velhos. Meu falecido avô também não era dos mais altaneiros, mas tinha lá um resquício dessa estirpe própria dos que já viveram muito. Era um formato de realeza um tanto incompreendida, é verdade, mas juro que tinha.
Eu gostaria mesmo é de ouvir umas histórias dessa gente que viveu muito. Deve ser bacana ter história pra contar, formar imagens, olhares suspensos, coloridos próprios ao passado (dizem que tudo depende do tom do dia e dos fantasmas da noite). Mas o Velho Pery não conta histórias. E também não me parece possuir a paciência dos oradores. A minha avó está bordando críticas aos hábitos curiosos do Velho Pery (que esquece chaves, bebe uns goles firmes e tal) e começo a acreditar que viver junto seja isso mesmo: ter alguém ao lado pra ouvir. E parece que eles se entendem e isso me basta.
Divirto-me ruminando sobre a essência daqueles que não conhecemos bem. Como são interessantes aqueles que não conhecemos bem. Será que o Velho Pery é uma pessoa boa ou é uma pessoa má? Fico com a coluna do meio. Ele deve ser comum como todos: um apanhado de bondades e ruindades. Outros mais, outros menos.
Terminamos de almoçar e é hora de ir pra rodoviária. O Velho Pery vai me levar. Entro de novo no carro dele, um tanto empachado com a promessa de aventuras ao volante logo após almoço. O Velho Pery, da planície de seus oitenta e tantos anos, me diz que sofreu um acidente de carro há vinte cinco anos. Magoou a bacia, bem aqui ó... E, veja só... Não é que vinte e cinco anos depois começou a doer... Acredita?
Acredito, Velho Pery, acredito... Mas não consigo assimilar a informação, afinal, sequer eu tenho esse tempo de existir. E se já aconteceu coisas estranhas comigo, nada parecido com isso me ocorreu ainda. Mas estou pensativo e vou aproveitar o ensejo surreal pra te fazer uma pergunta, Velho Pery: se eu vier a ter dores profundas, daquelas que cortam pedaços da alma e refletem triste na face, eu também demorarei tanto tempo assim pra sarar?
Até mais, Velho Pery, até mais... O ônibus está ali e a vida toda me aguarda na bacia da alma.

por:
Daniel Zanella

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