quinta-feira, 13 de agosto de 2009

O COMEÇO




Foi entrando no consultório como se numa antecâmara do inferno, sentou já imaginando o dedão que o penetraria em instantes, jogando por terra seus 47 anos da mais indubitável masculinidade. Em 2 minutos já está suando frio. A recepcionista chama o seu nome. Gela de pavor, sua mão treme e seus joelhos arqueiam quando se levanta da cadeira. Tem enjôo e espasmos nervosos fazem tremer o músculo da face involuntariamente esculpindo um sorriso idiota em seu rosto. Sente-se o pior dos mortais, um pateta. Entra no consultório. O médico é impessoal e lê sua ficha enquanto faz perguntas triviais. O Pânico aumenta quando o satânico doutor veste a luva cirúrgica. Ele jura que percebe no cantinho da boca do maligno um esboço de sorriso sádico enquanto pronuncia “ deite-se na maca, por favor”. Pra piorar sua humilhante situação, entra na saleta a ajudante do doutor carrasco, morena, imponente, esguia, linda e cheirosa , testemunha ocular de seu martírio. Nesse instante ele percebe que já não é mais um ser humano, mas um farrapo, um trapo, um pedaço de nada, um ninguém, uma bixa louca deitadinha ali de ladinho esperando a dedada do nada gentil doutor sacana. Sente o fundo do poço da pior maneira . Fecha os olhos e procura não pensar em nada.

“Acabou” diz a assistente gostosa com um sorriso consolador enquanto lhe entrega as roupas.

Vestido, volta à mesa do carrasco de branco olhando para os sapatos, senta-se um pouco incomodado e ouve então da boca do doutor diabo a frase que se consagra o pior dos castigos: “Infelizmente, não tenho boas notícias...”



Por:

Nelson Emerson.

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