Quem chega de Curitiba ou passa por Araucária vindo de Contenda provavelmente se impressiona com a “boca do inferno”. Trata-se da Petrobrás e seus fornos gigantes cuspindo fogo do seio da terra a muitos metros do chão. Apelidada assim, pelos peões que fazem a sua manutenção. Há muitas décadas aquele forno de Auschwitz arde como se fosse a verdadeira tocha da estátua da liberdade. Mas, como no outro caso, não é o caso de usar a palavra “Liberdade”.
A situação torna-se ainda mais funesta para mim, uma vez que, moro aqui perto da boca do inferno. Posso ouvir todas as noites na hora de dormir o barulho e os gemidos das labaredas contra o céu e imaginar o que ou quem elas estariam queimando? Realmente é fascinante e assustadora a projeção da chama. A forma como ela lança luz a quilômetros e o barulho que se pode ouvir de longe nos dias em que o fogo está mais alto que o de costume. Curioso também o petróleo ter o apelido de sangue do diabo. E esta é uma boa pergunta. O que estaria a boca do inferno queimando? Considere o simbolismo e até mesmo a poética implícita nas tochas da Petrobrás. Ela produz a energia da nossa sociedade. Tudo em nome da Liberdade, Igualdade, Fraternidade e progresso. Ah, o progresso! Argumento muito bem usado.
A Petrobrás é que gira as manivelas da nossa sociedade. E de uma sociedade suja, segregatória e hipócrita. O que estaria ela queimando então? Petróleo ou almas humanas? Gasolina ou abortos?Diesel ou nossos jovens assassinados pelas drogas? Polipropileno ou a felicidade de nossos filhos?Nafta ou o futuro de nossos filhos? Propeno ou a comida e a água de nossos filhos? Cheiramos todos os dias as cinzas humanas de nossa guerra fria capitalista misturada com a fumaça da boca do inferno. Carregamos nos pulmões o testemunho dos atos depravados de nossa geração. Das cinzas a cinzas, do pó ao pó.
Quando estiver passando por perto da boca do inferno de novo, principalmente se estiver com seu carro novo, alienado a bancos internacionais a zil parcelas, com seu celular inútil de última geração e com seu tênis de quatrocentos reais saiba que seu consumismo desenfreado sustenta um esquema muito antigo de escravização, abusos e assassinatos.
Sim. Aquelas são as chaminés do inferno e o seu combustível não é petróleo, é a nossa ignorância mediana, nosso egoísmo mesquinho e nosso orgulho narcisista. É araucariense; é assim mesmo! Quando alimentamos a teia consumista, sem saber, amontoamos corpos à beira da boca do inferno. Olhe para a chama da próxima vez que passar por lá e escute os gritos das crianças abortadas. Escute os gemidos de nossos velhos doentes. Os pedidos de socorro de nossas estupradas. O choro engolido de nossos humilhados.
O inferno começa aqui. E nós mesmos o acendemos! Afinal, é isso o que fazemos sem questionar. Queimamos e queimamos. Queimamos sonhos. Queimamos famílias. Queimamos talentos. Mas logo a boca do inferno poderá nos alcançar. Drible-a enquanto puder, mas logo, será o teu grito a ecoar junto com as chamas e a pedir socorro aos surdos araucarienses, curitibanos, paranaenses. Quando se vem de Curitiba para Araucária pelo Pinheirinho temos a impressão de estar em um dos filmes apocalípticos do Mad Max. Quem será o nosso Mad Max salvador? Essa é a face negra da industrialização. É impressionante, ver de um lado da cerca milhões de dólares em tecnologia, petróleo, CO2, aço, funcionários, programas culturais, propaganda na Mass Media; e do outro lado, bairros pobres fervilhando como o Tatuquara, Jardim da Ordem, Vila Verde. É pena mesmo tal população não querer quebrar tudo naquele chiqueiro hipócrita fumacento. -Mas lembrem-se... Dizem os idiotas... -É lá que nós temos empregos! Mas a que preço? A que preço? O que vamos comer no futuro? Ferro? Petróleo? CO2? Vamos acabar todos comendo merda radioativa num apocalipse inevitável em nome do nosso deus institucional - o dinheiro!
O inferno não foi criando para nós! Mas nossa insistência em admirá-lo e imitá-lo acabará nos levando de fato a ele.
Às vezes a boca do inferno pode se confundir com a nossa boca. Às vezes, o bafo do inferno pode se parecer muito com o nosso! Deixe o fogo subir com as almas. Deixe que acabe com as ossadas e a carne. Deixe que transforme em cinzas o nosso futuro.

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