Ao vaporoso longe, uma morena feia e de corpo exuberante sobe os degraus do calçadão e interrompe a minha leitura de banco de praça. Espanto uma mosca. Que tipo de roupa é essa que você está vestindo, moça? A moça veste um shortinho tão curto, mas tão curto, que talvez a vestimenta seja a verdadeira definição de repartição pública. A morena sobe os degraus lentamente, pé sobre pé, desfilando suas curvas e nariz. Um mendigo, que espreita o lascivo peregrinar raimundo, se coloca no último degrau, bem no roteiro místico da moça, e abre seus braços e trapos lindamente, à espera de um carinho gostoso, de um afago meigo e fraterno. A morena percebe e marcha impassível. A morena marcha impassível e o mendigo segue todo afetuoso em sua articulação benévola, até que no penúltimo degrau o corpo e nariz da moça fazem um movimento solene, desviando o carente mendigo.O mendigo fita o vazio por um instante e se vira pronunciando uma bela cantiga de domínio público:
- Ôôôô... Saúde!
De olhos fechados, o mendigo se abraça sozinho.
Uma mocinha linda, mas tão linda, que chego a cansar de desejo, está andando no calçadão num trote um tanto confuso. Ela grita meu nome com um ânimo considerável.
A mocinha linda tem apenas catorze anos – mas tem cara de dezasseis.
- Que faz pra esses lados, menina?
- Tô indo pegar ônibus. Tô morando em Curitiba agora.
- Veja só...
A mocinha linda tem cabelos curtos castanhos, olhos verdes bem clarinhos e um rosto angelical de fazer. Ela usa uma blusinha preta do AC/DC. Se é uma mocinha que ouve rock tampouco me afeta; o que me chama a atenção é o quanto a blusinha preta do AC/DC deixa transparecer as curvas musicais da mocinha.
- Viu... Tenho que ir. Semana que vem apareço lá no café. Beijos. Tchau.
- Tchau...
A mocinha parte me deixando um tanto agitado de meus devaneios de ordem imprópria. Antes de tentar retornar à leitura, ouço ela gritar:
- Te amo!!!
Ah, menina... Pare com essas coisas!
Um aparelho esquisito, cheio de CD’s de qualidade inquestionável, rege um curioso axé ao lado da igreja da praça:
“Senhor, estou aqui! Senhor, estou aqui! Seu nome é Jesus! Seu nome é Jesus! Não é Satanás! Não é Satanás!”
Um trecho de Vinícius de Morais pra elevar o nível da crônica e disfarçar a sujeira da praça pública:
“...Gostaria de dar-te aquela madrugada em que, pela primeira vez, as brancas moléculas do papel diante de mim dilataram-se ante o mistério da poesia subitamente incorporada; e dá-la com tudo o que nela havia de silencioso e inefável – o pasmo das estrelas, o mudo assombro das casas, o murmúrio místico das árvores...”
O rapaz de bicicleta parece um pouco chateado com o caráter íngreme do trecho que desemboca no início da praça. No meio da subida ele cessa as pedaladas e encosta delicadamente seu transporte no chão. O rapaz de bicicleta ao chão caminha tranquilamente até um bambu que protege uma muda de árvore. Observa o bambu por um instante e desfere um poderoso chute na base da graciosa gramínea, que cai cinematograficamente.
O rapaz sai mancando disfarçado, levanta a bicicleta e sai pedalando meio torto. Um sorriso vitorioso cobre seu rosto suado e iluminado dos raios intensos de sol de início de tarde.
por:
Daniel Zanella
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