Trisma
Dói muito. E dói o tempo todo. Talvez seja uma dor de dente como outra qualquer, mas considero a maior dor do mundo; mais do que a paixão não correspondida. É necessário dizer: não sei equivaler as dores de dente. É a minha primeira dor de dente. Sei que dói muito.
É como se houvesse um sino badalando na insônia, uma caverna pingando nos olhos durante a escuridão da fome. Estou no dentista. E estou com fome. Fome, fome, fome. Um senhor japonês de cabelos grisalhos e bengala pede que adentre o consultório. Um consultório odontológico é um bom tanto amedrontador. Diria que se assemelha ao cenário de algum filme futurista japonês. Algum filme futurista onde se perde os dentes.
O senhor japonês pede que me recline na cadeira. Pergunta o que se passa. Parêntese: tenho dificuldade extrema de nominar coisas corriqueiras. O que se passa? Não sei. Só sei que dói muito. Mas não me pergunte quanto, doutor. Fecha parêntese. Aponto o dente que dói. O senhor japonês direciona algo com uma luz dentro da minha boca. Não vi, é fato, já que só o ato de me deitar já me entonteceu de vez. Mas a luz tem uma natureza além do opaco dos olhos.
(Minha querida, perguntaste outro dia o que vi. Sempre enxerguei em ti o que aos outros era invisível. Sou bem brega, não?)
O senhor japonês não parece muito animado com o diagnóstico. Ou será prognóstico? Sou agnóstico, doutor, sou agnóstico.
Ele me olha com certo desalento e me passa umas recomendações serenas. Escovar direitinho, comer coisas macias com cautela... Sou comunicado de que logo logo perderei quatro dentes. A canção Jesus Não Tem Dentes No País dos Banguelas, do Titãs, é um nada. Não sei por que lembrei disso agora. Pergunto ao doutor quando serei operado. Assim que desinflamar, ele diz.
Porque se operar agora corre o risco de dar um trisma, completa.
- Trisma?
- Trisma.
Ah, as palavras...
por:
Daniel Zanella

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