
“Meu corpo é um cemitério de tempo;
um desses bosques sagrados onde
enterramos nossos mortos.”
Mia Couto
Deitado na cama de meu quarto leio uma revista de capa preta. São muitas letras e a ressonância da formação das palavras vai me deixando lento, os reflexos vão cessando, as pálpebras estão decantando, rastejando entre olhos de nevoeiro – a vida está prestes a se decompor em sonho.
Acima de minhas têmporas, pairam mitologias e reconheço semblantes cativos. Uma poetisa me pergunta se vivemos ou se inventamos, enquanto levito entre ardores malsãos e comboios românticos.
Meus lábios perlassos e rubros pedem amores genuínos numa linguagem silenciosa que só a minha companheira transparente e febril percebe. Agora mesmo passou uma memória e ela pouco me interessa.
Penso na trilha aberta a ser percorrida.
A ária de um consórcio futuro toca e nossos lábios são um só, minha querida.
Adormeço.
por:
Daniel Zanella
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