Eu queria escrever uma crônica de amor com tamanho afeto que a minha amada me leria e diria à sua mãe: mãe, ele me ama. E a mãe fitaria os olhos imensamente brilhantes da filha – minha filha, como te quero ver feliz – juntaria as mãos em seu rosto e suspiraria: sim, filha, ele te ama.Eu queria escrever uma crônica de amor com tamanha delicadeza que as amigas da minha amada leriam e atingidas por palavras de tão grave carinho, diriam às suas amigas todas – não sem algumas pontas livres de inveja rara – ele realmente a ama. E as amigas todas respirariam seus desejos mais recônditos de felicidade e enalteceriam a sorte da amiga.
Eu queria escrever uma crônica de amor com tamanha carga de verdade que aquele que não me conhecesse, me conheceria e diria à companheira diária de décadas: lembra como foi o nosso primeiro encontro? E a mulher sorriria discretamente, passando seus protetores dedos entre os cabelos velhos de seu amado.
Eu queria escrever uma crônica de amor com contornos tão singelos que as crianças ainda mal letradas leriam lentamente, errando algumas pronúncias, rabiscando outras e perguntariam –curiosas – pra professora: professora, o que é o amor? E a professora descansaria os olhos questionadores dos mais novos, quase chorando de uma emoção de ser viva – talvez por não existir resposta assim, simples como a brevidade de existir.
Eu queria escrever uma crônica de amor tão precisa que o crítico literário, até então inerte diante de tantas palavras soltas, diria pra si: não tem muito estilo, mas ele realmente ama. E anotaria no seu rascunho uma frase qualquer que ressoou bem entre tantas emoções expostas e pronunciaria pra sua mulher a noite antes de apagar a luz do fim do dia e dormir.
Eu queria escrever uma crônica de amor com tamanha sutileza que a mulher que há muito não acreditava mais no amor dissesse pra si: ele realmente a ama. E assim lembraria um antigo amigo que sempre lhe quis bem e lhe ligaria na madrugada inédita, enquanto em algum lugar um marido quase traidor refletiria pra si: eu amo a minha mulher. E desistiria de antigos desígnios.
Eu queria escrever uma crônica de amor com tamanha naturalidade que meus netos leriam em suas diversas mocidades e explicariam aos seus herdeiros: era escritor e amava. E as mocinhas em seus primeiros rompantes de ternura perguntariam: alguém me amará assim, pai? E o pai, tão devoto em seu amor genealógico – ainda ontem era tão pequena e menina – diria: sim, minha filha. Provarás desse inominável amor e sei que assim perderei um pouco de ti pra vastidão dos outros. E a filha não entenderia ainda o porquê dos olhos do pai encharcados de uma estranha tristeza biográfica de tempo pouco.
Eu queria escrever uma crônica de amor com tal efeito de prosa que a minha melhor amiga escutaria minha voz a cada frase emitida e perguntaria depois um tanto constrangida: estás a falar de mim? Eu diria: sim, estou a falar de ti, minha imensurável companheira, tão minha e tão longe de mim.
Eu queria escrever uma crônica de amor de tão significante sinceridade que eu mesmo leria em voz alta na sala da minha casa e diria às paredes testemunhas: eu a amo, e pensaria em alguns clichês adequados, como nunca amei ninguém, por exemplo.
Eu queria escrever uma crônica de amor – carregada de tanto amor – que fosse possível enxergar através das letras os lábios amparadores da amada e passar meus dedos lentos e amorosos entre seus cabelos macios, dizendo pausadamente – pra melhor absorção de cada sílaba característica – eu te amo. E mesmo que tudo não passasse de mera imaginação, eu sorriria leve – como meu coração brando de sentimentos tão abertos faz sempre que te vê.
Por Daniel Zanella
















