terça-feira, 11 de novembro de 2008

Histórias Subterrâneas

O grupo de visível desenvolvimento alcoólico adentra o recinto de seguranças conhecidos e rostos familiares no crepúsculo de feriado. O bar fica a direita. Boa noite. Boa noite, rapaziada. Vê uma pra nós aí. Música altíssima, gente decidida da colheita de boas novas. Uma confusão no salão. Alguns expulsos. Vamos fazer alguma coisa? Vamos. Calma, rapaziada, vejam lá o que vão fazer... Alguém tem o nobre juízo de furtar o boneco da decoração de entrada do Halloween. Não, não, parem, parem com isso. Que idéia maluca é essa? A cidade amanheceu um tanto chocada de ver um boneco negro estacado na cruz em frente da igreja principal da cidade.
Algumas linhas no chão oferecem a noção aproximada de direção. Estou no caminho certo. Não bebi tanto, estou bem equilibrada. Estou perto de casa, tenho certeza. Certeza. Trecho de estrada de chão. Pó intoxicante na noite periclitante. Meu deus. Não, moço. Mais devagar com esse carro na curva, olha o barranco, mais devagar, mais devagar. E foi só moto e mulher voando e tombando na entrada da casa de tolerância.
Brasil e Argentina. Final de campeonato. Entrada seca de vinte dinheiros e a imensidão a ser consumida nos tonéis de ilimitado alcoolismo. Duas horas de antecipação para necessária preparação espiritual. A equipe adversária é mais capacitada. Uma hora faltando. Acho que dá pra ganhar. Hora de jogo. Começou. E gol no telão. Gol do Brasil. Comemoração. Bebidas. Comemoração. Mais um gol. Outro gol. Inacreditável. Se houve questionamento acerca de divindades do universo esportivo e vômitos subseqüentes, melhor razão teve o tio do cachorro-quente, que a tantas horas da madrugada viu o fogãozinho de sua barraquinha inundado por líquidos evacuados de criaturas de rasa consciência – e bradou coloridos impropérios.
As turnês musicais possuem uma similaridade óbvia: o tédio das viagens desgastantes e os sabores incomuns do ar, da comida e espaços desequilibrados. Noite de show comum, músicas executadas conforme os ensaios, algumas doses pra noite acelerar seu desempenho cíclico. Fim. Alguns bebem até os poros limitados. Outros, ao infinito, insistem em perpetuar o precipício. Vamos, vamos beber mais. Não. Não. Vamos dormir. O ônibus parte daqui a pouco, Já tá tarde. Não, vamos, vamos. Ah, vá você, então. Tudo bem, vou sozinho. Só preciso de uns trocados. Me empresta uns trocados? O que? Não tô entendendo direito. Uns trocados? O ônibus não parte no horário combinado da manhã, tampouco se sabe o paradeiro do sanfoneiro até a hora do almoço, início de tarde, meio da tarde, fim da tarde. O músico, enfim, aparece a pé em seus trapos insones, arrastando-se pesadamente, mambembe, na incipiente noite gaúcha. Não me perguntem. Não me lembro de nada. Nada.
Os carros não estão num dia de significante inspiração. Radiador, bateria, óleo, embreagens, tudo a reclamar atenção entre cafés de tarde tranqüila e ventos discretos, porém incisivos no trajar. Trânsito alucinado. Como sobrevivem todos nessa euforia de buzinaços, xingamentos e movimentos desgovernados na lentidão absoluta? Uma cerveja, duas cervejas no barzinho improvisado ao lado da borracharia sinistra. O aparente proprietário possui aquele faro dos que sentem o desespero dos visitantes. Qualquer preço e serviço serão justos, justíssimos. Mulheres de cabelos curiosos e roupas idem intercalam-se entre o odor contagioso de calabresa e a velocidade cotidiana do passamento ilimitado de ônibus de linha. A noite logo começa sob a expectativa de doses e companhias suspensas. A mesa noturna do bar está repleta de garrafas esvaziadas e pensamentos impuros. Uma moça bem bonita de olhos aparentemente azulados e sorriso quase inocente – não fosse a ausência do noivo que liga e a faz correr até um local afastado do barulho – desperta uma espécie de cobiça coletiva. E algo não pulsa dentro dessa moça e é possível especular se as gotas de álcool que brilham em seus lábios não escondem algum profundo desejo de rever sua condição de vida.O fim cansado de retorno ao lar é abafado por um casal no ônibus pouco populoso. Sorriem baixinho os dois e compartilham um iogurte com um capricho e mesura cativantes. Nem é possível ousar comentários acerca da excêntrica refeição na boca da noite – uma evidente redoma protege-os dos olhares curiosos dos cronistas insones.

Por:
Daniel Zanella

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