
O senhor de longa barba branca e faixa verde de testa inteira – tal qual um Jesus Superstar – observa uma biografia de Pelé. Eu vi jogar. No Pacaembu, em 64. O Santos vencia por 3x1. Alguma coisa aconteceu e o goleiro do Santos se machucou e precisou sair do jogo. E o Pelé foi pro gol. Eu estava atrás do gol defendido pelo Rei, repondo bola. Então, vi o negão fazer uma defesa inacreditável. Tinha estrela o negão. Uma estrela enorme. E você? Qual é a sua estrela?
Umas mocinhas bem novinhas folheiam algumas revistas de moda ao lado dos expositores de livros de auto-ajuda. Trajam uniformes verdes. Quanto custa essa? E essa? E essa? Ah... Olha que lindo... Ah, o horóscopo... Vamos ler o horóscopo... Deixa eu ver o meu signo... Eu também quero ver... Eu também... As meninas lêem avidamente suas sortes, refletindo coincidências e prognósticos. Menos uma – logo observada por uma das amigas.
Você não vai ler o seu signo?
Não, não acredito nessas coisas.
Duas moças bem bonitas passam o tempo picotando notas fiscais e arejando a mente com outras tarefas tantas no expositor de metro e pouco. Pergunto o que fazem. Pergunto o que gostam. Uma delas me responde.
Ah, eu gosto de medicina.
Uhn... Interessante. Enfermaria, essas coisas?
Sim, sim.
Uhn... Dizem que a pessoa que se interessa por esse tipo de trabalho é muito altruísta.
É? Dizem?Acho que não. Eu gosto de ajudar pessoas, me doar...
A mãe de certa idade, loirice acachapante, cabelos lisos e rosto fino pergunta o que tem de opções de leitura pra seu filho de nove anos.
Que acha do Pequeno Príncipe?
Menos, menos.
Uhn... Tenho esse aqui.
É, parece que serve. A mulher me observa fundo.
Eu te conheço de algum lugar... Não é você que desenvolve um trabalho bem importante com dependentes alcoólicos?
Sorrio – coberto de uma surpresa excêntrica. Não, não sou eu. Ela me olha com uma ironia de lábio esquerdo, mas não diz nada. Foi como se tivesse pensado melhor e se arrependido de confundir-me com tal sublime alcunha.
Três mulheres ao centro e um homem fingindo que lê:
Gosto de livro de liderança. Não gosto de livro de literatura.
Eu também. Gosto de coisa objetiva.
Ui, não sei como tem gente que agüenta ficar lendo essas coisas.
A mãe bem novinha pega um livro infantil sobre engenharia na prateleira mais alta. Olha só... A filha – pequenininha, de uns três anos, no máximo – chega pisando lentamente sob seu sapatinho vermelho.
Filha, o que você quer ser quando crescer?
Uhn?
Filha, o que você disse agora pouco que queria ser quando crescer?
Porque você quer saber, mãe?
Filha... Diga pra mim... Te mostro uma coisa...
O que, mãe?
...
Tá bom, mãe... Eu quero ser engenheira.
A mãe abre um imenso sorriso, de uma candura que só as mães se permitem.
Olha esse livro, então...
Agora, o leitor há de entender a dificuldade emotiva do cronista em descrever cenas de paixão pelos livros. Mas uma tentativa descritiva não deixa de ser válida, apesar de alguma afetação: diante dos olhos incandescentes da menina e de suas mãos ligeiras abraçando um livro quase maior que o seu todo, parecia que eu estava a ver um continente se abrindo perante uma tropa de letras.
Umas mocinhas bem novinhas folheiam algumas revistas de moda ao lado dos expositores de livros de auto-ajuda. Trajam uniformes verdes. Quanto custa essa? E essa? E essa? Ah... Olha que lindo... Ah, o horóscopo... Vamos ler o horóscopo... Deixa eu ver o meu signo... Eu também quero ver... Eu também... As meninas lêem avidamente suas sortes, refletindo coincidências e prognósticos. Menos uma – logo observada por uma das amigas.
Você não vai ler o seu signo?
Não, não acredito nessas coisas.
Duas moças bem bonitas passam o tempo picotando notas fiscais e arejando a mente com outras tarefas tantas no expositor de metro e pouco. Pergunto o que fazem. Pergunto o que gostam. Uma delas me responde.
Ah, eu gosto de medicina.
Uhn... Interessante. Enfermaria, essas coisas?
Sim, sim.
Uhn... Dizem que a pessoa que se interessa por esse tipo de trabalho é muito altruísta.
É? Dizem?Acho que não. Eu gosto de ajudar pessoas, me doar...
A mãe de certa idade, loirice acachapante, cabelos lisos e rosto fino pergunta o que tem de opções de leitura pra seu filho de nove anos.
Que acha do Pequeno Príncipe?
Menos, menos.
Uhn... Tenho esse aqui.
É, parece que serve. A mulher me observa fundo.
Eu te conheço de algum lugar... Não é você que desenvolve um trabalho bem importante com dependentes alcoólicos?
Sorrio – coberto de uma surpresa excêntrica. Não, não sou eu. Ela me olha com uma ironia de lábio esquerdo, mas não diz nada. Foi como se tivesse pensado melhor e se arrependido de confundir-me com tal sublime alcunha.
Três mulheres ao centro e um homem fingindo que lê:
Gosto de livro de liderança. Não gosto de livro de literatura.
Eu também. Gosto de coisa objetiva.
Ui, não sei como tem gente que agüenta ficar lendo essas coisas.
A mãe bem novinha pega um livro infantil sobre engenharia na prateleira mais alta. Olha só... A filha – pequenininha, de uns três anos, no máximo – chega pisando lentamente sob seu sapatinho vermelho.
Filha, o que você quer ser quando crescer?
Uhn?
Filha, o que você disse agora pouco que queria ser quando crescer?
Porque você quer saber, mãe?
Filha... Diga pra mim... Te mostro uma coisa...
O que, mãe?
...
Tá bom, mãe... Eu quero ser engenheira.
A mãe abre um imenso sorriso, de uma candura que só as mães se permitem.
Olha esse livro, então...
Agora, o leitor há de entender a dificuldade emotiva do cronista em descrever cenas de paixão pelos livros. Mas uma tentativa descritiva não deixa de ser válida, apesar de alguma afetação: diante dos olhos incandescentes da menina e de suas mãos ligeiras abraçando um livro quase maior que o seu todo, parecia que eu estava a ver um continente se abrindo perante uma tropa de letras.
Por:
Daniel Zanella
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