quinta-feira, 6 de novembro de 2008

O Último Delito

Estou cá a voltar, caminhando na noite alcoólica direto de algum fim de mundo – foram tantas as garrafas que meus olhos vazam a malária do meu recente vômito puro riacho. Penso em curioso filme sobre um sujeito que resolveu se matar de tanto beber. Qual foi o final? Chuto uma sacola de lixo na calçada, espanto o cachorro maltrapilho e sua marrom carcaça, à espera do fim de sua moribunda natureza. Vá criar juízo, animal pestilento e vagante dos restos alheios. Contorno moderadamente uma esquina muito escura e ouço vozes - outro filme embarcando na memória – e femininas. Mulheres à beira de um ataque de nervos? Aos poucos, os traços vão se delineando no fim da madrugada – lá longe, um carro popular, um poste de luz frouxa e amarelada, quatro mulheres sentadas lado a lado no capô, uma caixa de cerveja em lata, plástico semi-rasgado. O que faz um grupo de mulheres paradas a essas horas da vida numa esquina pútrida e sem saída?
Ouço um som semelhante a uma gargalhada. Apontam pra mim, essas mulheres igualmente insones, igualmente acabadas. Afinal, é certo o gracejo da condição boêmia? Não é. Apresso meus passos, devo seguir em linha reta, correr se necessário. Atravesso a rua simples e me recordo de não olhá-las mesmo que seja preciso. Alguns instantes e cruzo então as mulheres alvoroçadas.
- Companheiro... Que isso? Tome uma com a gente...
- Vais dizer que tens medo de mulher?
- Acha que podemos te machucar, é?
Não cumpro meu objetivo inicial e fito os seres encostados no capô. O carro ilustra um pó de dias de abandono, a mais bonita é loira e de olhos azuis. Conheço esse rosto, essas curvas todas. Sim, será quem eu penso?
- Venha, tome uma aqui com a gente.
Detenho-me. Penso um instante em teorias conspiratórias, esqueço rapidamente e atravesso os cinco metros de rua de asfalto vagabundo e cheio de pedrinhas desconfortáveis. A loira me oferece uma cerveja de marca não identificada. Parece estar escrito uma sílaba, um ditongo, algo assim. Tenho dificuldades de abrir a lata. A loira me auxilia.
- Bebeu quantas hoje, companheiro?
- Não sei dizer.
- Isso é mal.
- E vocês?
- Também não sabemos dizer.
- Uhn...
A loira é muito bonita. Estou agora pensando se ela está a me sorrir ou se meu cérebro incrustou uma visão em seu rosto, me ludibriando.
- Por que me olhas tanto?
- Você é bem bonita, não?
- Achou?
- Achei.
- Pois então... Os bêbados têm disso.
- Não estou bêbado.
- Eu que estou...
- É possível.
Certeza. A loira sorriu pra mim.
- Mora aqui perto, companheiro?
- Sim, a duas quadras daqui. Ou três.
- Interessante.
- Por quê?
- Bem, pode ser interessante.
Bem, se eu pudesse especular daqui pra frente – em vocábulos claros e concisos – qual poderia ter sido a minha feição de contentamento se essa história tivesse realmente se desenvolvido, certamente omitiria que nesse exato momento de tal pitoresca trama, o cachorro de casa se debateu na porta, me acordou e fez-me levantar abruptamente. Abri a porta com uma violenta canastrice e quase lhe meti um pontapé, seguro que estava de uma punição educativa. Salvou-lhe do castigo por seu imensurável e último delito a bolinha vermelha entre seus dentes caninos. Resta, entretanto, uma dúvida pertinente ao tal ofício de cronista interino: se me parecia tão real, os detalhes tão perceptíveis e sensitivos, não poderei dizer que vivi?

Por Daniel Zanella

Nenhum comentário:

Postar um comentário