Era sempre tu, minha imensurável companheira, quem via passar adiante meus devaneios todos de tal felicidade inexistente – um denso comboio de cordas que o nobre poeta multifacetado fazia batizar corações de sorte precária.
Era sempre tu, minha imensurável companheira, quem me escoltava toda noite antes de dormir inquieto de meu funesto fim e a quem entregava todas as minhas sinistras virtudes – uma a uma – para que fizesses augúrios indefinidos.
Era sempre tu, minha imensurável companheira, quem restaurava todos os meus desejos simples e por quem deitava amores sem limites. Eu era todo espelho para o completo reflexo que emitia – e só não tecia novelos infinitos de afeto porque a tinta era pouca pra tantas porções esparramadas de amor latente.
Era sempre tu, minha imensurável companheira. Vertia por ti lágrimas beatrizes e carregava mundos em bagagens solitárias, algumas dores acopladas e matizes de vidro que nunca curaram. Eu quebrava a cada fortaleza de distância entre a sua leve indiferença e meus braços chamejantes contra o gelo bilíngüe – essa série de símbolos que sempre nos separou.
Era sempre tu, minha imensurável companheira, quando encontrava belezas ainda profundas e virgens e por quem escapava do plano – rumo ao etéreo duvidoso. Guiava-me através da cegueira – nada mais importava diante de ti e das minhas memórias sempre belas e tortas. Recordações sempre trevas acordavam meu dia e era como se me disparasse sem saber pra onde ir a cada vez que te via em postes, luminosos e outras mulheres tantas. O sono pesado e curto da madrugada sempre te trazia – e sempre comigo dormiam as euforias. Diga-me, se ainda ouve a minha voz que escreve essas palavras insanas, se o seu ódio ainda não cegou meu semblante: sou ou não sou um espetáculo triste?
Era sempre tu, minha imensurável companheira, a arqueira de meus pecados aleatórios e o alicerce de toda a minha igreja de contornos frágeis – a ilha onde resgatava meus fantasmas da solidão do que não tem juízo. Nunca realizaste o apelo manso de assentar todo o meu clamor em um piso para dois – sempre fomos rios secos de separação. E só digo que assim foi melhor por falta de outra opção (e rancor).
Era sempre tu, minha imensurável companheira, o motivo de tantos emblemas e ardor e o pedaço de meu peito ao qual inscrevia seu nome com sílabas de grave adereços. Esse todo pungente de não saber quem sou.
Era sempre tu, minha imensurável companheira, a razão de minha sorte e um trecho gigante de fogo brando no meu íntimo de emoções sinceras e angustiantes.
Era sempre tu, minha imensurável companheira, o motivo de tanta sanha, dificuldades de respiração e a voz maldita que ecoava quando o silêncio emancipava sua sombra noturna, se descolava do chão sujo e queria me agarrar.
Era sempre tu, minha imensurável companheira, a guardiã de todos os meus minutos e o meu universo de estrelas fortes e extintas. Foi pra mim o que representava tudo e o tudo se configurava em uma espécie de vazio que só se preenchia quando caminhava em minha direção – um quase clichê, meu amor? Sua voz baixa sempre anunciou algum tipo de precipício em que algum dia eu cairia inteiro, mas fingi que não ouvia por pura abstração.
Era sempre tu, minha imensurável companheira. Era sempre tu. E de tanto cansaço de ser sempre você, agora vou levar calmamente todo o meu amor em pequenos comprimidos doentes e entregarei tudo numa bandeja com diversas facas torturantes: aqui está o meu coração, ainda escorrendo sangue, batendo só mais uma rápida estação descompassada ao som de seu triste nome – sim, mais um leve clichê sobre aquilo que há tanto tempo versa a humanidade, livros trágicos e domínios públicos sem final feliz. A morte nos fará bem e assim realizarei um epitáfio de contornos breves, um cemitério de caveiras nobres. Um cavaleiro tomba e a sua armadura se desfaz em serpentes reluzentes.
Minha imensurável companheira, as minhas mãos firmes seguram uma guilhotina e o seu pescoço está à mostra, sei do mal que estou fazendo, sei o quanto serei inglório – nenhum conceito pode explicar esse mundo diante do sofrimento e mágoa de ambos. Só que até no fim o seu nome insiste em ressoar e espero que isso seja por pouco tempo. Hoje só me resta desejar poderosamente o fim. O seu pescoço rola como pedem os suicidas. Fim. Fim. Fim.
por:
Daniel Zanella
Daniel Zanella
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