
Quinta-feira. O John Bull Pub está prestes a receber em seu palco um dos maiores nomes do rock nacional. Wander Wildner, ex-vocalista da banda Replicantes e ícone absoluto do punk brega, tocará daqui a pouco as músicas da turnê de seu novo álbum, “La Cancion Inesperada”. A expectativa está distribuída em todo o bar. Grupos das mais diversas estirpes especulam nas mesas o repertório a seguir. A minha pedida é “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”. Se tocar essa, já sou um pinto feliz. (A primeira madrugada em que ouvi essa música estava em terra estrangeira, passava fome e garoava solidão.)
Wander Wildner entra no palco e jovens gritentos se acotovelam em sua frente. Muitos deles. Aqui no cantinho está bom pra mim.
- “La Cancion Inesperada”
A canção inesperada/ De um amor inesperado.
Wander Wildner está no palco e pede pra que aplaudam a banda de apoio. Mais. Mais aplausos. Exijo respeito aos meus amigos, diz ele. Não aplaudo por puro despeito, mas sinto-me como se observado por ele.
- “Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo”
Eu tenho uma camiseta escrita eu te amo/ Parece uma grande bobagem, mas é o que eu sinto quando estou voando e eu tô voando.
Wander Wildner usa uma camisa com dois botões abertos abaixo do pescoço. Não é exatamente um astro de traços elegantes. Mas é um astro que se irrita com um fã que insiste em pedir a música “Astronauta”. “Astronauta” é o caralho, é a singela resposta. Sou um pinto feliz. E um homem apaixonado.
- “Bebendo Vinho”
Eu vivo sozinho e apaixonado/ Não tenho ninguém aqui do meu lado.../ Vou me entorpecer bebendo vinho/ Eu sigo só o meu caminho.
A platéia grita Wander!Wander! até os pulmões mudarem de dono. Num espanhol falsificado, Wander Wildner diz que a platéia não entende nada de música. Porque não se trata de mim. Se trata da canção. A canção é que fica. Entendem?
- “Candy”
Doce, doce, doce /Eu não deixarei você partir/ Toda a minha vida você me perseguiu/ Eu te amo demais/ A vida é loucamente doce, querida.
Algumas vezes, chego a acreditar que esta canção do Iggy Pop é a mais singela composição de tudo o que há de sonoro. Também estou a acreditar que me emociono muito fácil. Ainda ouviremos juntos essa canção, minha companheira seleta, ainda ouviremos.
- “Eu Não consigo Ser Alegre O Tempo Inteiro”
Você sempre surge em minha mente
Sempre você e ninguém mais
É de você que eu me lembro
Sempre você e ninguém mais
E ninguém mais, e ninguém mais
...
Eu sempre tento e não consigo
Então, às vezes quando a noite chega
Eu fico só comigo mesmo
E só me resta a saudade como companhia
Como companhia
Você diz que não me quer mais
E que agora eu sou seu grande amigo
Você me quer só a metade
Mas pra mim você está em toda a parte
Em toda a parte
- “Rodando El Mundo/ Pára-quedas do Coração”
Y tiengo um paraquedas para te salvar/ Porque trago um paraquedas em mi corazón.
Wander Wildner está novamente a falar numa língua específica. Tentarei traduzir. Porque também falo em espanhol? Porque somos latino-americanos. Somos todos do mesmo sangue fervente. Não concordam? Então, vão tomar no culo.
- “Lugar do Caralho”
Eu preciso encontrar/ Um lugar legal pra mim/ Dançar e me escabelar/ Tem que ter um som legal/ Tem que ter gente legal/ E ter cerveja barata.
O gaúcho Flavio Basso, do Júpiter Maçã e de outros cultuados projetos do rock nacional, escreveu essa canção pitoresca como se num tour lisérgico. É uma canção poderosa – porque vigora honestidade. E sinto-me transportado. E os entorpecentes que consumi até agora estão todos dentro da lei.
- “Surfista Calhorda”
Ah, surfista calhorda, vai surfar n'outra borda.
É a última música. E é uma pancadaria sonora esquizofrênica. É a última música. Não sei o que se passa comigo e não sei porque essas canções, algumas até rudimentares, me fascinam tanto. Transcorre em mim uma necessidade cíclica de me haver com os instintos mais ancestrais, de absorver energia sem parâmetros estéticos, técnicos, algo telúrico mesmo. Uma vontade insana de não ser.
Por quê? Porque assim é.
Só tem uma coisa, Wander: não é por causa disso que irei pedir autógrafo e nem porque estou a dois metros de ti, aqui na salinha improvisada de imprensa, que irei até você. Basta daqui. Será que você é rei, como diz meu amigo ao lado? Só te ouço no palco. Lá posso acreditar. Lá és o dono da igreja. Aqui fora, somos iguais. E aqui fora não estou possesso.
Wander Wildner está alcoolizado e degustando avidamente uma tábua colorida de frios na mesa. Também tenho fome.
Daniel Zanella
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