sábado, 31 de janeiro de 2009

Bronco

suscetível de ereção
pedra dura para polir
descortês, mal educado, grosseiro
dado a briga.
semelhante a verdade
que tem aparência de verdadeiro
não repugna a verdade.
numa espécie de âmbula
ou redoma de vidro
que guardam relíquias
de um homem esforçado
e energético, insuperável
e inamovível, cujo os termos
entre sí, não comportam
um divisor comum....
indomável, não se pode rejeitar
em adaptá-lo a índole
das línguas românticas
extíntas, implacáveis e duras...

por:
Almeidassauro

Bronco

suscetível de ereção
pedra dura para polir
descortês, mal educado, grosseiro
dado a briga.
semelhante a verdade
que tem aparência de verdadeiro
não repugna a verdade.
numa espécie de âmbula
ou redoma de vidro
que guardam relíquias
de um homem esforçado
e energético, insuperável
e inamovível, cujo os termos
entre sí, não comportam
um divisor comum....
indomável, não se pode rejeitar
em adaptá-lo a índole
das línguas românticas
extíntas, implacáveis e duras...

por:
Almeidassauro

Questão de sorte

E tudo não passa de uma questão de sorte. A frase que eu mais ouvi na minha vida,tanto por min mesmo quanto por outros. Começo achar que essa frase faz totalmente sentido, tudo pode se acabar ou tudo pode dar um salto gigantesco por uma fração de segundos. A teoria da conspiração se baseia totalmente nisso, e com toda razão [ou sorte]. A minha vida não passou de sorte, o fato de eu ser eu hoje em dia é pura sorte. Muitos de nos evitam pensar nessa questão, pois na cabeça deles, não podem ser tão insignificantes assim pra simplesmente perderem ou ganharem sua vida por uma questão ridiculamente pequena, uma questão de sorte Dizem que Deus é a sorte. Eu não sei, mas nunca me esqueci do dia em que por um tris não morri. Era um fim de tarde após o colégio, eu estava muito estressado, pois não tinha conseguido recuperar minha media em matemática e não haveria outra chance, pelo menos naquele trimestre, enfim, estava desatento, mergulhado em·pensamento de como iria me safar daquilo. Eu ainda tinha que pegar um ônibus pra voltar pra casa, foi quando eu vi o mesmo virando na esquina de cima da quadra que eu estava, eu já sabia o trajeto, se eu corresse até o ponto de duas quadras acima

daria tempo, por que ele ainda iria dar a volta pela quadra de baixo. Corri o maximo que pude, fui atravessar a rua em frente ao colégio pra poder já ter a certeza,pois o angulo do outro lado permitia que eu soubesse caso ele viesse antes de eu chegar ao ponto,ai eu tentaria acenar ou algo assim para o motorista.foi quando eu desatento tropecei no próprio cadarço [eu tenho o péssimo hábito de não amarrar sempre que eles desamarram] praticamente virei duas cambalhotas no meio da rua, cai de cabeça, fiquei desatento, lento, tonto, tentei me levantar mas minha mochila estava muito pesada e fui mais lento, me senti desesperado, meu crânio agora era o prato cheio de qualquer motorista despercebido, estava com metade do meu corpo no lado direito da rua e metade no meio, se eu levantasse ficaria seguro pois existia uma pequena viela do meu lado e os motoristas sempre desviam um bom tem pode distancia antes dela . Meu medo era de que, como estava com metade do corpo do lado direito, os carros vinham do outro lado e demoravam mais para desviar da viela, ou seja, era muito provável que algum carro no mínimo iria me machucar muito. O caso é que eu joguei todo o peso do meu corpo contra a mochila e ela me puxou para o meio, porém ,foi caso de um ou no maximo 2 segundos,um ligeirinho passou raspando na minha frente, e eu fiquei sentado assistindo aquilo que seria a minha sentença de morte o motorista freou pois deve ter me visto sentado ali no meio da rua pelo retrovisor, pensando que me atingiu. Eu percebi e ainda perplexo acenei que estava tudo bem, ele continuou. Não consegui acreditar, era demais pra min, não podia ser, no segundo seguinte eu comecei rir e me tomei por uma extrema euforia. La estava eu, como se tivesse conseguido ter êxito em todos os meus sonhos, como se tivesse nascido novamente, intacto,esquecido de tudo e de todos, não precisava de mais nada, só de min mesmo.Gratidão, palavra misteriosa pra min naquele momento, pois não sabia se agradecia,e se fosse, pra quem agradeceria, para a gravidade que me ajudou a empurrar a mochila,para o tempo que me salvou por alguns segundos, ou para min mesmo. Por via das duvidas, fiquei com a sorte mesmo, ou Deus, como vocês quiserem, não sou religioso, porém não tenho nada contra a crença na existência dele. A questão é que muitos de nos se enchem de orgulho, se vangloriam pelo estado atual, pelo que vocês têm, pois bem,agradeçam que vocês possam ter um pouco disso tudo, pois provavelmente, se não fosse pela sorte, ou a má sorte na questão do egocentrismo, não teriam nada, nem a si mesmos.O ônibus?Ah, eu levantei e caminhei lentamente até o ponto, deu tempo, provavelmente tinham muitos passageiros nos outros pontos... Se bem que tinham muitos bancos sobrando... Questão de sorte.

por:

Dom Quixote

Questão de sorte

E tudo não passa de uma questão de sorte. A frase que eu mais ouvi na minha vida,tanto por min mesmo quanto por outros. Começo achar que essa frase faz totalmente sentido, tudo pode se acabar ou tudo pode dar um salto gigantesco por uma fração de segundos. A teoria da conspiração se baseia totalmente nisso, e com toda razão [ou sorte]. A minha vida não passou de sorte, o fato de eu ser eu hoje em dia é pura sorte. Muitos de nos evitam pensar nessa questão, pois na cabeça deles, não podem ser tão insignificantes assim pra simplesmente perderem ou ganharem sua vida por uma questão ridiculamente pequena, uma questão de sorte Dizem que Deus é a sorte. Eu não sei, mas nunca me esqueci do dia em que por um tris não morri. Era um fim de tarde após o colégio, eu estava muito estressado, pois não tinha conseguido recuperar minha media em matemática e não haveria outra chance, pelo menos naquele trimestre, enfim, estava desatento, mergulhado em·pensamento de como iria me safar daquilo. Eu ainda tinha que pegar um ônibus pra voltar pra casa, foi quando eu vi o mesmo virando na esquina de cima da quadra que eu estava, eu já sabia o trajeto, se eu corresse até o ponto de duas quadras acima

daria tempo, por que ele ainda iria dar a volta pela quadra de baixo. Corri o maximo que pude, fui atravessar a rua em frente ao colégio pra poder já ter a certeza,pois o angulo do outro lado permitia que eu soubesse caso ele viesse antes de eu chegar ao ponto,ai eu tentaria acenar ou algo assim para o motorista.foi quando eu desatento tropecei no próprio cadarço [eu tenho o péssimo hábito de não amarrar sempre que eles desamarram] praticamente virei duas cambalhotas no meio da rua, cai de cabeça, fiquei desatento, lento, tonto, tentei me levantar mas minha mochila estava muito pesada e fui mais lento, me senti desesperado, meu crânio agora era o prato cheio de qualquer motorista despercebido, estava com metade do meu corpo no lado direito da rua e metade no meio, se eu levantasse ficaria seguro pois existia uma pequena viela do meu lado e os motoristas sempre desviam um bom tem pode distancia antes dela . Meu medo era de que, como estava com metade do corpo do lado direito, os carros vinham do outro lado e demoravam mais para desviar da viela, ou seja, era muito provável que algum carro no mínimo iria me machucar muito. O caso é que eu joguei todo o peso do meu corpo contra a mochila e ela me puxou para o meio, porém ,foi caso de um ou no maximo 2 segundos,um ligeirinho passou raspando na minha frente, e eu fiquei sentado assistindo aquilo que seria a minha sentença de morte o motorista freou pois deve ter me visto sentado ali no meio da rua pelo retrovisor, pensando que me atingiu. Eu percebi e ainda perplexo acenei que estava tudo bem, ele continuou. Não consegui acreditar, era demais pra min, não podia ser, no segundo seguinte eu comecei rir e me tomei por uma extrema euforia. La estava eu, como se tivesse conseguido ter êxito em todos os meus sonhos, como se tivesse nascido novamente, intacto,esquecido de tudo e de todos, não precisava de mais nada, só de min mesmo.Gratidão, palavra misteriosa pra min naquele momento, pois não sabia se agradecia,e se fosse, pra quem agradeceria, para a gravidade que me ajudou a empurrar a mochila,para o tempo que me salvou por alguns segundos, ou para min mesmo. Por via das duvidas, fiquei com a sorte mesmo, ou Deus, como vocês quiserem, não sou religioso, porém não tenho nada contra a crença na existência dele. A questão é que muitos de nos se enchem de orgulho, se vangloriam pelo estado atual, pelo que vocês têm, pois bem,agradeçam que vocês possam ter um pouco disso tudo, pois provavelmente, se não fosse pela sorte, ou a má sorte na questão do egocentrismo, não teriam nada, nem a si mesmos.O ônibus?Ah, eu levantei e caminhei lentamente até o ponto, deu tempo, provavelmente tinham muitos passageiros nos outros pontos... Se bem que tinham muitos bancos sobrando... Questão de sorte.

por:

Dom Quixote

Som do Pingo

por:
Vinicius Marçal

Som do Pingo

por:
Vinicius Marçal

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

SEJA VOCÊ MESMO...

Chuva e pedras caindo sobre o meu telhado

O vento forte pairando sobre a minha janela

Sussurros em meus ouvidos na beira da minha cama

Dizem algo em que não posso escutar nesta madrugada

Rumores fortes, intensidade absoluta, sufoco sombrio

Para que haja a sensação insensata de que algo vem até a mim

Suores, delírios, alucinações e tudo o que há de mais inquietante

Em um ser humano.

Preocupar-se não seria a melhor alternativa,

reclinar-se não seria a melhor opção

Obscuridade na noite fria em que flagelos

Se congelam para que possam ser descongelados

Por alguém

Falácias abstratas não se tratam do que exponho

Sentindo tudo o que não vejo

Saberei até o que não está ao alcance da alma

Repugnância ao que é correto

Querendo viver aquilo que é intenso

Não quero me ausentar para não ter que fazer

Só porque pode não ser normal

Minhas atitudes podem ser insana para muitos

E para mim é tudo muito natural

Pessoas sentem medo daquilo que é verdadeiro

E se misturar com a intensidade que sinto

Fogem para outros lugares que não fazem parte

Do meu sentido

Viver vivendo não é viver intensamente

Acomodados porque não sabem

A grandeza de ser você mesmo

Buscam dogmas

Buscam coisas que não existem

Buscam o tradicional

Esquecendo – se do fundamental

Ser você mesmo.


por:

Giovana Martignago

SEJA VOCÊ MESMO...

Chuva e pedras caindo sobre o meu telhado

O vento forte pairando sobre a minha janela

Sussurros em meus ouvidos na beira da minha cama

Dizem algo em que não posso escutar nesta madrugada

Rumores fortes, intensidade absoluta, sufoco sombrio

Para que haja a sensação insensata de que algo vem até a mim

Suores, delírios, alucinações e tudo o que há de mais inquietante

Em um ser humano.

Preocupar-se não seria a melhor alternativa,

reclinar-se não seria a melhor opção

Obscuridade na noite fria em que flagelos

Se congelam para que possam ser descongelados

Por alguém

Falácias abstratas não se tratam do que exponho

Sentindo tudo o que não vejo

Saberei até o que não está ao alcance da alma

Repugnância ao que é correto

Querendo viver aquilo que é intenso

Não quero me ausentar para não ter que fazer

Só porque pode não ser normal

Minhas atitudes podem ser insana para muitos

E para mim é tudo muito natural

Pessoas sentem medo daquilo que é verdadeiro

E se misturar com a intensidade que sinto

Fogem para outros lugares que não fazem parte

Do meu sentido

Viver vivendo não é viver intensamente

Acomodados porque não sabem

A grandeza de ser você mesmo

Buscam dogmas

Buscam coisas que não existem

Buscam o tradicional

Esquecendo – se do fundamental

Ser você mesmo.


por:

Giovana Martignago

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pague pra entrar e reze pra sair


por:
Hidersox

Pague pra entrar e reze pra sair


por:
Hidersox

Na outra linha ....


Ela me derrubou
com toda a sua
força de expressão
isso, depois de me jogar na cara
vírgulas e reticências...
Como se não bastasse
ainda me desejou
adjetivos, sinônimos e plurais
dos quais eu .
Sem nenhuma exclamação
não tive linhas
pra continuar, então
ponto final
e tchau...

por:
almeidassauro

Na outra linha ....


Ela me derrubou
com toda a sua
força de expressão
isso, depois de me jogar na cara
vírgulas e reticências...
Como se não bastasse
ainda me desejou
adjetivos, sinônimos e plurais
dos quais eu .
Sem nenhuma exclamação
não tive linhas
pra continuar, então
ponto final
e tchau...

por:
almeidassauro

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

ESTIVE NO INFERNO E LEMBREI-ME DE VOCÊ




A vida, essa que nós assistimos e pensamos que fazemos parte significativa, parece a obra de um titereiro sem talento. Sobram fios amarrados ao nosso corpo, os movimentos são irreais, a cortina tapa metade da visão e a pintura das marionetes está sempre descascada. Nosso espetáculo, aqui nesse teatro abandonado, é simplesmente um fiasco. A sensação é a de que Deus saiu para comprar cigarros e errou o caminho de volta, ou que talvez ele tenha encontrado Godot pelo caminho e os dois resolveram sair para sacanear algum vagabundo dormindo na rua. E a gente fica aqui, esperando, procurando o que fazer e tentando dar sentido a coisas que não têm sentido, enquanto eles não voltam.

O pior é que amor acha de aparecer bem nessas horas em que os dvd's da locadora já são todos repetidos e os livros na sua estante não inspiram releituras. A repetição dos dias contamina a paciência e a vontade de manter-se bêbado é maior do que o estômago pode agüentar. Pois bem, resolvi preencher esse vazio todo com você e essa sua bunda e essa sua pose de ninfa e essa sua cara de intelectual, mas como você sabe, eu também poderia ter preenchido esse vazio com uma pizza de calabresa e um pouco de ketchup.

Quando me lembro de você batendo a porta, a primeira coisa que penso é "Por que ela não espremeu os dedos?". E então vou até lá, coloco meus dedos na quina e os esmago até a dor sugar toda irrealidade desse apartamento.

Não pense que você foi assim tão importante. Na verdade, sem você, eu sigo sem adoecer. O mal sempre esteve aqui dentro. Sempre fui meio ansioso: mando e-mails para listas desconhecidas, aguardando um novo contato improvável, um sexo casual ou mesmo uma conversa sobre algum filme do Bergman; compro duas caixas de Skol e as tomo assistindo Sessão da Tarde; fumo charutos vagabundos e fico tossindo engasgado; tomo vários banhos para me livrar do cheiro dos charutos vagabundos; ouço minha própria tosse e espero um eco, uma resposta vinda de outro cômodo; ligo a tv e o rádio ao mesmo tempo para fingir que tem mais alguém em casa; escrevo uma porção de poesias para mandar para meus amigos esperando que eles me devolvam elogios e lustrem o meu ego; dou voltas na quadra buscando inspiração para uma história diferente, mas só consigo pensar em clichês ou no meu próprio umbigo.

Como vê, não mudou muita coisa. Resta-me o café, companheiro que dilui algumas horas insuportáveis. O problema é que o café já não me basta como fé. Tenho pensado em comer a borda da caneca - a amarela, aquela mesma que você derrubou cem vezes. As rachaduras e a gordura na louça ainda evocam demônios e geografias dos teus descaminhos sujos aqui na minha vida; desculpe o vocabulário, minha mente anda, ou talvez pare, um tanto confusa -, creio que mascar um pouco de cerâmica talvez me devolva um pouco do gosto da tua pele.

O fato é que não tenho mais estômago para essa sua cara amorfa, que finge interesse enquanto falo de literatura, quando na verdade você gostaria de estar no banheiro, vomitando ou lendo Caras. Aliás, me devolva o livro do Chico que eu te emprestei e você nem leu. Não, pensando bem não devolva nada, o seu retorno tem cheiro de ameaça. A ameaça de que tudo volte a ser como era antes: feliz. Essa felicidade burra que nos cega e nos impede de raciocinar, dois mais dois, fazendo com que nós acreditemos na fábula absurda da convivência possível.

Depois fico procurando respostas, não sossego enquanto não sangro. O seu tédio sempre me pareceu falta de talento para a vida, mas agora, contaminado pela sua ausência, fico procurando em mim a nascente desse rio que já nasceu poluído.

Gasto horas colocando defeitos em tudo o que faço, encenando nossas discussões, formulando frases que não tive coragem de falar, lamentando as oportunidades que perdi de te humilhar, depois relembro cada detalhe disso tudo e choro com pena de mim mesmo. E depois eu fico rindo. E depois eu fico triste. E depois eu fico bêbado. E quando a companhia toca, eu penso que é você, com seu rosto lindo e sua expressão de arrependida, uma expressão tão meiga que faria eu te perdoar. Mas quem sabe seja outra pessoa, talvez seja Deus, que achou o rumo de casa e veio me salvar de você. Não. É só o cara da pizza. Pago e recebo o troco, é assim que funciona. Vou voltar para frente da tv, acho que ainda sobraram algumas latinhas de cerveja quente. Acordo de madrugada com um gosto azedo na boca. Não lembro se vomitei. Talvez tenha sido apenas a lembrança de um beijo seu. Adormeço novamente pensando no fim de um espetáculo em que ninguém aplaude.

Por
Eder Alex

ESTIVE NO INFERNO E LEMBREI-ME DE VOCÊ




A vida, essa que nós assistimos e pensamos que fazemos parte significativa, parece a obra de um titereiro sem talento. Sobram fios amarrados ao nosso corpo, os movimentos são irreais, a cortina tapa metade da visão e a pintura das marionetes está sempre descascada. Nosso espetáculo, aqui nesse teatro abandonado, é simplesmente um fiasco. A sensação é a de que Deus saiu para comprar cigarros e errou o caminho de volta, ou que talvez ele tenha encontrado Godot pelo caminho e os dois resolveram sair para sacanear algum vagabundo dormindo na rua. E a gente fica aqui, esperando, procurando o que fazer e tentando dar sentido a coisas que não têm sentido, enquanto eles não voltam.

O pior é que amor acha de aparecer bem nessas horas em que os dvd's da locadora já são todos repetidos e os livros na sua estante não inspiram releituras. A repetição dos dias contamina a paciência e a vontade de manter-se bêbado é maior do que o estômago pode agüentar. Pois bem, resolvi preencher esse vazio todo com você e essa sua bunda e essa sua pose de ninfa e essa sua cara de intelectual, mas como você sabe, eu também poderia ter preenchido esse vazio com uma pizza de calabresa e um pouco de ketchup.

Quando me lembro de você batendo a porta, a primeira coisa que penso é "Por que ela não espremeu os dedos?". E então vou até lá, coloco meus dedos na quina e os esmago até a dor sugar toda irrealidade desse apartamento.

Não pense que você foi assim tão importante. Na verdade, sem você, eu sigo sem adoecer. O mal sempre esteve aqui dentro. Sempre fui meio ansioso: mando e-mails para listas desconhecidas, aguardando um novo contato improvável, um sexo casual ou mesmo uma conversa sobre algum filme do Bergman; compro duas caixas de Skol e as tomo assistindo Sessão da Tarde; fumo charutos vagabundos e fico tossindo engasgado; tomo vários banhos para me livrar do cheiro dos charutos vagabundos; ouço minha própria tosse e espero um eco, uma resposta vinda de outro cômodo; ligo a tv e o rádio ao mesmo tempo para fingir que tem mais alguém em casa; escrevo uma porção de poesias para mandar para meus amigos esperando que eles me devolvam elogios e lustrem o meu ego; dou voltas na quadra buscando inspiração para uma história diferente, mas só consigo pensar em clichês ou no meu próprio umbigo.

Como vê, não mudou muita coisa. Resta-me o café, companheiro que dilui algumas horas insuportáveis. O problema é que o café já não me basta como fé. Tenho pensado em comer a borda da caneca - a amarela, aquela mesma que você derrubou cem vezes. As rachaduras e a gordura na louça ainda evocam demônios e geografias dos teus descaminhos sujos aqui na minha vida; desculpe o vocabulário, minha mente anda, ou talvez pare, um tanto confusa -, creio que mascar um pouco de cerâmica talvez me devolva um pouco do gosto da tua pele.

O fato é que não tenho mais estômago para essa sua cara amorfa, que finge interesse enquanto falo de literatura, quando na verdade você gostaria de estar no banheiro, vomitando ou lendo Caras. Aliás, me devolva o livro do Chico que eu te emprestei e você nem leu. Não, pensando bem não devolva nada, o seu retorno tem cheiro de ameaça. A ameaça de que tudo volte a ser como era antes: feliz. Essa felicidade burra que nos cega e nos impede de raciocinar, dois mais dois, fazendo com que nós acreditemos na fábula absurda da convivência possível.

Depois fico procurando respostas, não sossego enquanto não sangro. O seu tédio sempre me pareceu falta de talento para a vida, mas agora, contaminado pela sua ausência, fico procurando em mim a nascente desse rio que já nasceu poluído.

Gasto horas colocando defeitos em tudo o que faço, encenando nossas discussões, formulando frases que não tive coragem de falar, lamentando as oportunidades que perdi de te humilhar, depois relembro cada detalhe disso tudo e choro com pena de mim mesmo. E depois eu fico rindo. E depois eu fico triste. E depois eu fico bêbado. E quando a companhia toca, eu penso que é você, com seu rosto lindo e sua expressão de arrependida, uma expressão tão meiga que faria eu te perdoar. Mas quem sabe seja outra pessoa, talvez seja Deus, que achou o rumo de casa e veio me salvar de você. Não. É só o cara da pizza. Pago e recebo o troco, é assim que funciona. Vou voltar para frente da tv, acho que ainda sobraram algumas latinhas de cerveja quente. Acordo de madrugada com um gosto azedo na boca. Não lembro se vomitei. Talvez tenha sido apenas a lembrança de um beijo seu. Adormeço novamente pensando no fim de um espetáculo em que ninguém aplaude.

Por
Eder Alex

domingo, 25 de janeiro de 2009

O MONGE

Parou de beber, de fumar, de jogar e de trepar.

Foi para o mosteiro estudar canto gregoriano e planejava nunca mais sair de lá. Tudo por causa daquela ingrata, aquela vagabunda... “olha a linguagem irmão”.

O tempo passou lentamente, 2, 5, 10, 11...29 dias e ele fugiu pra buscar um caixote de livros velhos que havia deixado na garagem de sua antiga casa.

Foi andando, pensamentos elevados, canto, reza, Deus, sua nova vida longe das tentações mundanas, longe daquela mulher vulgar, aquela vagabunda, aquela vaca...”olha a linguagem irmão”. Autocontrole absoluto.

Seu instinto de preservação entrou em estado de alerta quando passou em frente ao velho boteco da conta ainda aberta, onde bebia com a rapaziada, onde o samba rolava até de madrugada, onde conheceu aquela vadia traidora... “oooolha!”.

No balcão a materializada tentação: Bira e Neco, os mais queridos amigos de balacobaco. Não, não poderia ceder às tentações mundanas, estava decidido. Mas aí era demais, pô, o maior tempão longe do mundo real, só umazinha, Deus nem ia ficar sabendo. Botava o assunto em dia com os amigos velhos, só umazinha e uma lisa, pra ajudar a empurrar a bera, opa, acabou a lisa e não acabou a bera. Tá bom, só mais uma lisinha, ”põe na conta, Demerval, Deus lhe pague”.

Saiu de si, acordou tarde de manhã e demorou pra perceber que estava na casa da diaba, da maldita putana. Demorou mais ainda pra entender como a faca de pão foi parar na sua mão. Sua camisa encharcada de sangue. Na sala o corpo retalhado.

Por:

Nelson Emerson





O MONGE

Parou de beber, de fumar, de jogar e de trepar.

Foi para o mosteiro estudar canto gregoriano e planejava nunca mais sair de lá. Tudo por causa daquela ingrata, aquela vagabunda... “olha a linguagem irmão”.

O tempo passou lentamente, 2, 5, 10, 11...29 dias e ele fugiu pra buscar um caixote de livros velhos que havia deixado na garagem de sua antiga casa.

Foi andando, pensamentos elevados, canto, reza, Deus, sua nova vida longe das tentações mundanas, longe daquela mulher vulgar, aquela vagabunda, aquela vaca...”olha a linguagem irmão”. Autocontrole absoluto.

Seu instinto de preservação entrou em estado de alerta quando passou em frente ao velho boteco da conta ainda aberta, onde bebia com a rapaziada, onde o samba rolava até de madrugada, onde conheceu aquela vadia traidora... “oooolha!”.

No balcão a materializada tentação: Bira e Neco, os mais queridos amigos de balacobaco. Não, não poderia ceder às tentações mundanas, estava decidido. Mas aí era demais, pô, o maior tempão longe do mundo real, só umazinha, Deus nem ia ficar sabendo. Botava o assunto em dia com os amigos velhos, só umazinha e uma lisa, pra ajudar a empurrar a bera, opa, acabou a lisa e não acabou a bera. Tá bom, só mais uma lisinha, ”põe na conta, Demerval, Deus lhe pague”.

Saiu de si, acordou tarde de manhã e demorou pra perceber que estava na casa da diaba, da maldita putana. Demorou mais ainda pra entender como a faca de pão foi parar na sua mão. Sua camisa encharcada de sangue. Na sala o corpo retalhado.

Por:

Nelson Emerson





sábado, 24 de janeiro de 2009

Reflexões Sobre o Rabo


O dicionário define a palavra rabo como : prolongamento da coluna vertebral de vários animais . Mas na linguagem figurada o significado de rabo vai muito além desta simples definição .

Em 1987 a professora de História disse :

- Como o homem veio de uma espécie de macaco , um dia ele teve rabo .

Então , logo , eu me meti :

- O ser humano ainda tem rabo , professora .

A mestra indagou :

- Como assim ?

- As pessoas possuem uma espécie de rabo espiritual e comportamental .

- Tem até uma cantiga popular que diz :

- Quem cochicha , o rabo espicha .

- Quem se importa , o rabo entorta .

- Quando alguém entra num recinto e se esquece de fechar a porta , sempre tem um moralista que comenta :

- Este daí esqueceu o rabo na porta !

- Na minha primeira infância , quando eu ouvia isto , sempre espiava para ver se saía algum rabo das nádegas do distraído e passava horas olhando para a porta , com a esperança de ver a cauda de criatura tão desatenta .

- Até hoje , num tempo frio , quando uma moça sai com decote e minissaia , também , há um conservador que afirma :

- Esta daí está com fogo no rabo !

- Na minha meninice eu pensava que ter fogo no rabo era sofrer de assaduras . Assim eu imaginava que as mulheres que usavam roupas curtas no frio sofriam deste problema .

- Ainda na minha época de garotinha , sempre quando eu ia há alguma festa e comia bastante , existia uma tinha que sempre me perguntava :

- Aí , já encheu o rabo ?!

- Deste jeito eu respondia :

- Não enchi o rabo , enchi a barriga , tia !

- Meu rabo não enche , apenas esvazia nos momentos em que tenho dor de barriga e vou ao banheiro .

- Naquele tempo , um certo dia , eu estava dentro do carro quando de repente , no sinaleiro , apareceu um outro veículo que tinha a seguinte frase no vidro :

- Quando falam mal de mim é o meu rabo quem escuta .

- No caminho , ao passar em frente a uma fábrica , ouvi um sindicalista falando para um operário :

- Não vire uma vaca de presépio na empresa . Pois quem se abaixa demais mostra o rabo e pode tropeçar na própria cauda .

- Naquela época eu , realmente , me assustava quando numa cena de filme policial , um bandido falava para o outro :

- Agora , você meterá o rabo entre as pernas !

- Pois você está com o rabo preso !

- Desta maneira , eu pensava :

- Será que até os bandidos possuem este tipo de rabo invisível ...

- Este rabo que todo mundo tem , mas que ninguém consegue enxergar ?!

- Alguns anos depois , eu descobri que estes rabos faziam parte da linguagem figurada . E que , em algumas vezes , rabo pode ser o sinônimo de nádegas .

- Uma certa vez , na minha adolescência , estava assistindo a um programa de TV quando apareceu o estilista Gualtier comentando sobre o vestido de noiva de uma atriz . Até que , no meio da entrevista , ele mostrou o retrato desta noiva e afirmou :

- Isto não é uma cauda de noiva !

- Isto é um verdadeiro rabo !

- Um rabo espiritual que parece sair de dentro da alma da noiva !

- Naquele momento fiquei encantada com as palavras deste estilista .

Após estes meus comentários , na sala de aula , todos deram gargalhadas .

A verdade é que , realmente , todos os seres humanos possuem uma espécie de rabo espiritual : o rabo que é o caminho para a consciência e a cauda que nos protege contra nossos inimigos .


por:

Luciana do Rocio Mallon

Reflexões Sobre o Rabo


O dicionário define a palavra rabo como : prolongamento da coluna vertebral de vários animais . Mas na linguagem figurada o significado de rabo vai muito além desta simples definição .

Em 1987 a professora de História disse :

- Como o homem veio de uma espécie de macaco , um dia ele teve rabo .

Então , logo , eu me meti :

- O ser humano ainda tem rabo , professora .

A mestra indagou :

- Como assim ?

- As pessoas possuem uma espécie de rabo espiritual e comportamental .

- Tem até uma cantiga popular que diz :

- Quem cochicha , o rabo espicha .

- Quem se importa , o rabo entorta .

- Quando alguém entra num recinto e se esquece de fechar a porta , sempre tem um moralista que comenta :

- Este daí esqueceu o rabo na porta !

- Na minha primeira infância , quando eu ouvia isto , sempre espiava para ver se saía algum rabo das nádegas do distraído e passava horas olhando para a porta , com a esperança de ver a cauda de criatura tão desatenta .

- Até hoje , num tempo frio , quando uma moça sai com decote e minissaia , também , há um conservador que afirma :

- Esta daí está com fogo no rabo !

- Na minha meninice eu pensava que ter fogo no rabo era sofrer de assaduras . Assim eu imaginava que as mulheres que usavam roupas curtas no frio sofriam deste problema .

- Ainda na minha época de garotinha , sempre quando eu ia há alguma festa e comia bastante , existia uma tinha que sempre me perguntava :

- Aí , já encheu o rabo ?!

- Deste jeito eu respondia :

- Não enchi o rabo , enchi a barriga , tia !

- Meu rabo não enche , apenas esvazia nos momentos em que tenho dor de barriga e vou ao banheiro .

- Naquele tempo , um certo dia , eu estava dentro do carro quando de repente , no sinaleiro , apareceu um outro veículo que tinha a seguinte frase no vidro :

- Quando falam mal de mim é o meu rabo quem escuta .

- No caminho , ao passar em frente a uma fábrica , ouvi um sindicalista falando para um operário :

- Não vire uma vaca de presépio na empresa . Pois quem se abaixa demais mostra o rabo e pode tropeçar na própria cauda .

- Naquela época eu , realmente , me assustava quando numa cena de filme policial , um bandido falava para o outro :

- Agora , você meterá o rabo entre as pernas !

- Pois você está com o rabo preso !

- Desta maneira , eu pensava :

- Será que até os bandidos possuem este tipo de rabo invisível ...

- Este rabo que todo mundo tem , mas que ninguém consegue enxergar ?!

- Alguns anos depois , eu descobri que estes rabos faziam parte da linguagem figurada . E que , em algumas vezes , rabo pode ser o sinônimo de nádegas .

- Uma certa vez , na minha adolescência , estava assistindo a um programa de TV quando apareceu o estilista Gualtier comentando sobre o vestido de noiva de uma atriz . Até que , no meio da entrevista , ele mostrou o retrato desta noiva e afirmou :

- Isto não é uma cauda de noiva !

- Isto é um verdadeiro rabo !

- Um rabo espiritual que parece sair de dentro da alma da noiva !

- Naquele momento fiquei encantada com as palavras deste estilista .

Após estes meus comentários , na sala de aula , todos deram gargalhadas .

A verdade é que , realmente , todos os seres humanos possuem uma espécie de rabo espiritual : o rabo que é o caminho para a consciência e a cauda que nos protege contra nossos inimigos .


por:

Luciana do Rocio Mallon

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

E Se Eu Pudesse Entrar Na Sua Vida

Hieronymus Bosch - O Navio dos Loucos
Pintor flamengo (1450-1516)


E Se Eu Pudesse Entrar Na Sua Vida



As luzes se apagam no Teatro Guaíra. Primeiro balcão na arquitetura de moldes italianos. O cenário lembra um filme de ufologia com suas iluminações de código morse. Talvez Spielberg. A expectativa é grande, o show está atrasado vinte minutos e a casa está cheia, compacta. Todos aguardam a cantora Mônica Salmaso e o grupo instrumental Pau Brasil. O repertório é dedicado a Chico Buarque. Conheço algumas músicas. Estou lendo o programa. Deve ter sido caro esse folder.
Muitos na platéia estão ensandecidos. A cantora possui discípulos bem agitados e estridentes. Algumas moças, desconfio, devem ser ex-paquitas. O grupo entra. Aplausos protocolares. Alguém me diz que se trata de uma composição musical histórica. Legal. A cantora, trajando um vestido discreto e elegante, surge de uma das laterais. Estou um pouco longe pra observar com mais crivo seus traços. Os aplausos se intensificam. A partida já se inicia vencida. Um casal muito atrasado atravessa o caminho e, mesmo no breu completo, é possível sentir a vibração dos impropérios.
As dimensões do Teatro Guaíra deixam os músicos semelhantes às peças de um gigantesco jogo de xadrez e a sintonia entre eles é evidente. O nervosismo inicial da intérprete é muito bem resolvido com algumas tiradas espirituosas.
Arrependo-me de alguns pensamentos de aspectos sinuosos. Sempre há uma mulher. A cantora segue à risca o riquíssimo repertório e a efusão de fanatismo faz com que o público aplauda diversas vezes fora de hora. As desculpas são válidas. A apresentação é digna do conceito de espetáculo e chega a ser ultrajante acreditar que tamanho virtuosismo, competência e organização custem dez reais – o preço de uma dose nas casas de tolerância ou de um vinil mais ou menos raro do Wando.
Ainda não contente com o exercício de qualidade irretocável transbordando no palco, estou à espera de algum momento sublime repentino. E não é preciso muita espera: o espetáculo é todo programado pra última música, “Beatriz”, do antológico O Grande Circo Místico. Num piano e voz arrepiante, daqueles de fazer o coração se retorcer de melancolia, a simpática e cativante Mônica Salmaso coloca lágrimas nos olhos mais sensíveis e conquista as últimas bases resistentes. Impossível passar incólume. Sempre há uma mulher.
Quando o espetáculo acaba, muitos ainda estão desnorteados. As moças estão ainda mais histéricas. A saída é lenta e reflexiva e todo o teatro italiano parece povoado de pensamentos tristes e ardentes. Se eu pudesse entrar na sua vida, quão menos trágico eu seria, minha companheira.

por:
Daniel Zanella

E Se Eu Pudesse Entrar Na Sua Vida

Hieronymus Bosch - O Navio dos Loucos
Pintor flamengo (1450-1516)


E Se Eu Pudesse Entrar Na Sua Vida



As luzes se apagam no Teatro Guaíra. Primeiro balcão na arquitetura de moldes italianos. O cenário lembra um filme de ufologia com suas iluminações de código morse. Talvez Spielberg. A expectativa é grande, o show está atrasado vinte minutos e a casa está cheia, compacta. Todos aguardam a cantora Mônica Salmaso e o grupo instrumental Pau Brasil. O repertório é dedicado a Chico Buarque. Conheço algumas músicas. Estou lendo o programa. Deve ter sido caro esse folder.
Muitos na platéia estão ensandecidos. A cantora possui discípulos bem agitados e estridentes. Algumas moças, desconfio, devem ser ex-paquitas. O grupo entra. Aplausos protocolares. Alguém me diz que se trata de uma composição musical histórica. Legal. A cantora, trajando um vestido discreto e elegante, surge de uma das laterais. Estou um pouco longe pra observar com mais crivo seus traços. Os aplausos se intensificam. A partida já se inicia vencida. Um casal muito atrasado atravessa o caminho e, mesmo no breu completo, é possível sentir a vibração dos impropérios.
As dimensões do Teatro Guaíra deixam os músicos semelhantes às peças de um gigantesco jogo de xadrez e a sintonia entre eles é evidente. O nervosismo inicial da intérprete é muito bem resolvido com algumas tiradas espirituosas.
Arrependo-me de alguns pensamentos de aspectos sinuosos. Sempre há uma mulher. A cantora segue à risca o riquíssimo repertório e a efusão de fanatismo faz com que o público aplauda diversas vezes fora de hora. As desculpas são válidas. A apresentação é digna do conceito de espetáculo e chega a ser ultrajante acreditar que tamanho virtuosismo, competência e organização custem dez reais – o preço de uma dose nas casas de tolerância ou de um vinil mais ou menos raro do Wando.
Ainda não contente com o exercício de qualidade irretocável transbordando no palco, estou à espera de algum momento sublime repentino. E não é preciso muita espera: o espetáculo é todo programado pra última música, “Beatriz”, do antológico O Grande Circo Místico. Num piano e voz arrepiante, daqueles de fazer o coração se retorcer de melancolia, a simpática e cativante Mônica Salmaso coloca lágrimas nos olhos mais sensíveis e conquista as últimas bases resistentes. Impossível passar incólume. Sempre há uma mulher.
Quando o espetáculo acaba, muitos ainda estão desnorteados. As moças estão ainda mais histéricas. A saída é lenta e reflexiva e todo o teatro italiano parece povoado de pensamentos tristes e ardentes. Se eu pudesse entrar na sua vida, quão menos trágico eu seria, minha companheira.

por:
Daniel Zanella

VÍVIDO



Musica: Vívido
Banda: Nefilibatas
Video: Hans Hichter - Fernand Leger
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por:
Giuliano Andreso