sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

E Se Eu Pudesse Entrar Na Sua Vida

Hieronymus Bosch - O Navio dos Loucos
Pintor flamengo (1450-1516)


E Se Eu Pudesse Entrar Na Sua Vida



As luzes se apagam no Teatro Guaíra. Primeiro balcão na arquitetura de moldes italianos. O cenário lembra um filme de ufologia com suas iluminações de código morse. Talvez Spielberg. A expectativa é grande, o show está atrasado vinte minutos e a casa está cheia, compacta. Todos aguardam a cantora Mônica Salmaso e o grupo instrumental Pau Brasil. O repertório é dedicado a Chico Buarque. Conheço algumas músicas. Estou lendo o programa. Deve ter sido caro esse folder.
Muitos na platéia estão ensandecidos. A cantora possui discípulos bem agitados e estridentes. Algumas moças, desconfio, devem ser ex-paquitas. O grupo entra. Aplausos protocolares. Alguém me diz que se trata de uma composição musical histórica. Legal. A cantora, trajando um vestido discreto e elegante, surge de uma das laterais. Estou um pouco longe pra observar com mais crivo seus traços. Os aplausos se intensificam. A partida já se inicia vencida. Um casal muito atrasado atravessa o caminho e, mesmo no breu completo, é possível sentir a vibração dos impropérios.
As dimensões do Teatro Guaíra deixam os músicos semelhantes às peças de um gigantesco jogo de xadrez e a sintonia entre eles é evidente. O nervosismo inicial da intérprete é muito bem resolvido com algumas tiradas espirituosas.
Arrependo-me de alguns pensamentos de aspectos sinuosos. Sempre há uma mulher. A cantora segue à risca o riquíssimo repertório e a efusão de fanatismo faz com que o público aplauda diversas vezes fora de hora. As desculpas são válidas. A apresentação é digna do conceito de espetáculo e chega a ser ultrajante acreditar que tamanho virtuosismo, competência e organização custem dez reais – o preço de uma dose nas casas de tolerância ou de um vinil mais ou menos raro do Wando.
Ainda não contente com o exercício de qualidade irretocável transbordando no palco, estou à espera de algum momento sublime repentino. E não é preciso muita espera: o espetáculo é todo programado pra última música, “Beatriz”, do antológico O Grande Circo Místico. Num piano e voz arrepiante, daqueles de fazer o coração se retorcer de melancolia, a simpática e cativante Mônica Salmaso coloca lágrimas nos olhos mais sensíveis e conquista as últimas bases resistentes. Impossível passar incólume. Sempre há uma mulher.
Quando o espetáculo acaba, muitos ainda estão desnorteados. As moças estão ainda mais histéricas. A saída é lenta e reflexiva e todo o teatro italiano parece povoado de pensamentos tristes e ardentes. Se eu pudesse entrar na sua vida, quão menos trágico eu seria, minha companheira.

por:
Daniel Zanella

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