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e todas as companheiras, a mais fiel. Dos poucos relacionamentos, o mais duradouro: insônia. Presença sempre marcante, tanto nos dias mais simples, de leituras quaisquer e escritas esporádicas, quanto nas noites turbulentas de pressões capitalistas diversas. Insônia.
Quando me isolo ainda mais dentro da caixa das arrogâncias particulares (é verdade, não ouço ninguém), logo ela chega, insônia, pra me fazer companhia e ditar memorandos sobre minhas tendências à solidão. Hoje, gentil companheira que não me vê cerrar os olhos, deitaremos a sós nessa cama dura para duas pessoas de menos de um metro e oitenta e crentes da ineficácia de querer mudar conceitos alheios.
Você bem sabe que sempre preferi o que dizem os literatos sobre ti, afinal, pra quê números quando o que se tem a dizer são subjeções de ordem sombria? Desconfias de que converso sozinho? Percebes que quando começo a divagar sobre as diversas existências e a inexistência de praticidade dos filósofos, nem você, pobre parceira de infortúnios e paixões de última hora, só você me ouve – minha forma ideal, reluzindo em minha fronte. Insônia.
A porta está fechada e somente um feixe de luz atravessa a cortina (um tanto) clara devido a intensidade da iluminação pública. A noite pede um pouco mais de silêncio e veneração neste sepulcro de dias absolutamente iguais. Alguns homens igualmente solteiros gritam na frente do bar da esquina como a expulsar seus demônios supremos e vazios internos. Eu não vou pagar. Já paguei, pô. Então vou ter que chamar a polícia. Dormir de dia é inconcebível diante dos carros de propaganda buzinando sinfonias ruins – deveria ser proibido qualquer ruído que trouxesse dor e irritação aos ouvidos humanos. Só resta à noite maciça ouvir homens frívolos – penso nas mulheres tristes necessitadas de algumas palavras de conforto e alívio, um clichê sequer.
Se um dia acontecer, como na velha música, de tudo parar (e não haver mais necessidade de dormir), deitaremos em nossos berços guarnecidos pelos temores mais profundos e partiremos em direção as respostas todas, já mortos em esferas de luz cortando o céu livre das interrogações. Minha insônia: cativa e dividida.
Aqui nesta cama estranha e estrangeira, de tentáculos habitualmente insanos – há um relógio digital à minha direita e agora tenho a certeza de que não existe o tempo – eu e minha insônia, letárgicos e abraçados, confidenciamos dilemas, epifanias e amarguras, desejando um pouco do sono alheio em detrimento de tantas perguntas soltas.
por:
Daniel Zanella
Bom, bom!
ResponderExcluir-Água de melissa
ResponderExcluir-Chá de camomila
-Rivotril
Se não adiantar, sugiro que comece a se cansar mais durante o dia, duvido que a insônia não passa.