Estou a caminhar na estrada deserta. As marginais são decoradas por pastos infinitos, entediantes. Após minutos de um silêncio agonizante, passa um carro bem devagar, escapamento furado. Peço carona, mas o motorista transpõe minha figura rindo sarcástico, sem muita consideração ocasional, me deixando só um rastro de fumaça. E o carro vai desaparecendo, sumindo lentamente, até se confundir com os vapores do sol e se transformar numa memória.
Vou me arrastando a pé com certa solenidade. Olho pra cima e eis que avisto alguma coisa descendo valsamente até o chão do asfalto. Estou a me arrastar de cansaço (nesse momento de repetição proposital de sentença, leitor, te interessa saber como cheguei até aqui?) e quero saber o que pousa do céu e se locomove nas faixas amarelas em brasa viva.
Ando mais alguns instantes e começo a enxergar contornos firmes, definidos. É um galo. Sei que é um galo. Certeza. E é um galo dourado. Estou a me aproximar, cada vez mais, e reconheço não se tratar de um galo qualquer. É um galo maior que eu. Um galo dourado de uns oitenta quilos – bem saudável, reluzente, acrescento. O galo dourado está numa posição de ataque, espreitando algo. O que você pensa em fazer, galo dourado? Você não irá me comer, galo dourado. Prometi pra mim mesmo, antes de sair viajando sem rumo, que até posso não comer nada, mas ninguém irá me comer.
O galo dourado se movimenta lentamente até o acostamento de mato baixo cinza e uniforme. Escuto um som – e não parece vindo do galo dourado. Tenho conhecimento de causa: galos dourados não fazem esse som. Vejo, então, uma criatura rasteira, verde-limão com listra roxa, se arrojando no chão e abrindo sua bocaça cheia de dentes pontiagudos. É um jacaré, um jacaré verde-limão com listra roxa (listra na cabeça, pra não deixarmos falhar a precisão descritiva). O jacaré verde-limão com listra roxa está desafiando o galo dourado? Está. E estou torcendo pro jacaré verde-limão com listra roxa. É menor, não vi voar e, neste momento de embate visivelmente desproporcional, estou crente de que não quer me comer. Jacaré! Jacaré! Jacaré!
O jacaré verde-limão com listra roxa está pronto pra lutar até o fim, corajoso, impetuoso, e parte pra cima do galo dourado em frenesi, ziguezagueando sem perder jamais a elegância e o porte altivo, atlético. O galo dourado aguarda o jacaré verde-limão com listra roxa, calmo, petulante e arrogante, acrescento, e quando o jacaré verde-limão com listra roxa dá o seu inspirado e gracioso bote, o galo dourado pula em cima dele, fincando suas garras prateadas direto nos olhos do impreciso atacante – apesar de não ser um profundo conhecedor de jacaré verde-limão com listra roxa, garanto, leitor, o jacaré verde-limão com listra roxa não ficou feliz.
Pobre jacaré verde-limão com listra roxa... Sabe o que está acontecendo? O galo dourado acaba de arrancar seus olhos, rasgar seu rosto e está bicando sua cabeça sucessivamente. Está escorrendo um moído vermelho viscoso que se esparrama na estrada. Pobre jacaré verde-limão morto sem listra roxa...
Estou a passar exatamente agora o foco da discórdia. Sou da paz, galo dourado. O galo dourado me observa com seus olhos de rinha, montado nas costas do perdedor. Está se preparando pra fazer alguma coisa, o nosso vencedor. Sou da paz, sou da paz e o leitor, você que chegou até aqui está aí pra confirmar: sempre torci pro galo dourado, combatente muito bem preparado, eficaz e estrategista. Ele agora está abrindo suas asas – devo ser fiel mais uma vez contigo, leitor que me defendeu, não é assim um esplendor de perfumaria o nosso galo dourado, mas é o nosso vencedor. [De que adianta os lírios se as ervas daninhas é que são felizes?]
O galo dourado está abracando seu almoço. Que cena particularmente inebriante, que coisa linda de se ver: o galo dourado está alçando vôo com sua vitória a tiracolo, e toda a paisagem inóspita parece aplaudir – e o jacaré verde-limão morto sem listra roxa vai viajar um pouquinho, conhecer um pouco mais desse mundão. Só um galo dourado é capaz de proporcionar isso.
Estou com fome. Ah, eu comia esse jacarezinho se o galo dourado resolvesse partilhar o almoço... Mas não sei o que dizer ao galo dourado enquanto ainda é possível enxergá-lo voando. Maldito galo dourado egoísta e pútrido. É o que penso.
Sei que estou a caminhar na estrada deserta. E não sei por quê. Muito calor, muita sede. E a minha fome ameaça transbordar meu corpo e assumir forma própria.
por:
Daniel Zanella
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