quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Dá um careta

Um frio terrível assola o bairro da Costeira numa noite qualquer de noventa e seis. O vento cortante e o céu estrelado anunciam a geada da manhã seguinte.
A piázada da vila faz festa. Reúnem-se num terreno baldio em volta de uma fogueira, para transtorno dos bons moradores que voltam do culto expurgador de pecados nos mirando com olhares de reprovação. O que será que imaginam, vendo a gente caçar mato seco para aumentar o fogo? Coisa boa, não é.
Passa da meia-noite e todas as interas possíveis foram feitas. Não há mais movimento na rua para filosofarmos a respeito e nem uma candanga para mexer. A bebida acabou, bem da verdade porque alguns resolveram brincar de pirofagia cuspindo a última garrafa de pinga que restava. Os assuntos acabaram, bem como a disposição de todos.
Depois de muito tempo, Mãrci é o primeiro a levantar. Todos tentam convence-lo a ficar, pois não tem que acordar cedo e nem seus pais o chamam. Simplesmente fraqueza. Atitude reprovável. Há uma espécie de pacto não declarado, um código de conduta onde ninguém deve ir embora. Assim que um se vai, outros geralmente fazem o mesmo.
Nem nós que moramos umas quadras dali estamos com tanta pressa, pra que ir tão cedo se mora do ali do lado?
Ele cumprimenta a todos na roda, dá a quarta bola no mata-rato do Seco, joga a bituca e espera um carro passar para atravessar a rua.
O monza amarelo diminui a velocidade até parar.
- Dá um careta – diz o carona, com tom de voz amistoso.
- Não tenho – responde o gordo inocente, batendo as mãos nos bolsos para mostrar que está vazio.
Seco oferece seu cigarrinho palha brava e pergunta se alguém tem fogo.
- Nós temos este fogo aqui – responde o motorista empunhando uma arma.
Parecia deixa de um espetáculo tragicômico. Na cena que prossegue, as portas do carro se abrem e saltam quatro mandando todos se deitar no chão. Camelo se recusa para não sujar a roupa. Sem problemas, eles tiram a jaqueta dele. Depois que vemos ele levar uns sopapos fica claro de que não era brincadeira. Deu meiodiazin! Fechou o tempo!
- Você tire a jaqueta. Você tira o tênis.Você também. Eu quero o tênis - Seco e Mãrci são as vítimas.Antes que alguém viesse a gritar, Gargamel cabisbaixo afasta-se devagar como se disfarçasse para aproveitar qualquer descuido e sair correndo. Faz uns movimentos estranhos, rodeando o lugar para sentar, e escolhe o meio fio. Vira-se para pegar algo no seu lado, como talvez uma pedra, um revolver, uma faca ou apenas uma botina. Ele sofre envergonhado tentando desatar o cadarço com uns três nós cegos, ao mesmo tempo em que tenta esconder o dedão á mostra e o solado descolando. Cagaço.
- Eu não quero esta bosta. Credo! – diz o ladrão
Ninguém conteve as risadas, até os sujeitos armados desmancharam o rosto mal encarado.
- Isso é sapato que se apresente?
Eles saem derrapando pneus e deixam para Gargamel uma grande dúvida: Comprar um sapato novo ou não?
- Até que o prejuízo não foi tanto. Amanhã aqui no mesmo lugar, piázada? – diz o piá calçado e sorridente.

por:
Rico

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