segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Olhos Verdes



Foi uma morte fulminante. Não sei bem ao certo como tudo começou. Parece que foi com uma inofensiva consulta odontológica. Mas sei assim por saber, afinal só tenho compromisso direto com o que eu vejo. Um dente incomodava há muito e era preciso sanar (não sei quem disse que a dor de dente só perde pra dor do parto no coração das dores). O dentista mexeu no dente da moça e o rosto inchou flagrante, como se coberto de espuma vil. Algo estava errado. Manchas surgiram por todos os lados e alguns exames mais agudos foram realizados até que parece que lá pra frente se chegou ao diagnóstico: leucemia.

O tratamento se mostrou corrosivo: se foram os cabelos e uma certa intensidade se esvaiu rapidamente daquela moça bonita de olhos verdes. (É preciso ser sincero, leitor, esse que vos escreve não conhecia a moça pessoalmente, só de ver passar, mas não simpatizava com a moça bonita de olhos verdes. Certa vez houve algum tipo de comentário negativo sobre a moça, e seus traços duros de linha firme que passeavam na galeria pareciam confirmar o prognóstico. E assim posso dizer que aos olhos outros não passamos de espectros que respiram). Outro dia um amigo disse que a encontrou no supermercado em plena fase de tratamento e ficou apavorado. Cabisbaixa, a moça perguntou se ainda a reconhecia com o chapéu e máscara bocal. Não a reconheceu.

A moça tinha traços esculpidos de quem parecia quebrada por alguma coisa. Talvez fosse uma moça triste, talvez fosse uma moça de uma felicidade ímpar, talvez fosse uma moça que não se revelasse a estranhos. Seu filho pequeno, loiro de olhos verdes, parecia um pedaço concreto da mãe. Até a afetação de rocha parecia igual. O tratamento se mostrou padecido, denso e a moça morreu e foi uma morte inchada, de caixão pesado, que desfigurou aquela beleza retocada (era tão bela em seu auge de beleza que agora perdôo seus antigos traços duros de linha firme).

O enterro foi de um sofrimento assombroso. Como se explica uma morte prematura dessas? Foi uma morte fulminante. Todos pareciam questionar os desígnios divinos. Aqueles que não compartilham dos credos alheios também ficaram atônitos. Os pais, inconsoláveis. Eles também morreram (e só lágrimas gigantes devem rolar nos momentos de silêncio). A criança chorou aos brados, quase que sua voz se tornou um elemento próprio de seu ser, um clamor com formas físicas, e quem viu disse que foi um cenário de terror supremo.

A criança se derramou pela mãe que se foi e o caixão foi lacrado e levado ao seu mausoléu precoce. Alguns instantes antes da mãe ser enterrada, a criança apoiou suas mãozinhas miúdas no caixão e gritou repetidamente:

- Mãe! Volta mãe! – e os últimos que resistiam à tragédia choraram compulsivamente, como num ensaio tétrico.

Tenho que parar por aqui, caro leitor. Como fazer pra que as palavras do relato da criança suplicando o retorno da mãe não ecoem na minha mente agora que tento dormir? Já é tarde: agora a criança que suplica o retorno da mãe já é um pedaço de mim. (Criança de olhos verdes que chora, o que lembrará você da sua mãe quando tiver a minha idade?)

E todos choram compulsivamente. E todos somos imensos caixões vivos com mãozinhas miúdas que choram as perdas de modo próprio (mas a minha mãe ainda está aqui).

por:

Daniel Zanella

Nenhum comentário:

Postar um comentário