sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

NOVENTA E CINCO (OU A VERDADEIRA HISTÓRIA DE AUSTREGÉSYLO PAMPHILIO DE ASSUMPÇÃO)

Sessenta e cinco anos e o tempo o pegou pelo pé. Vovozinho, aposentado, comprimidinho de hora em hora e osteoporose. Ranzinza, se alguém gentilmente pergunta se precisa trocar a fralda geriátrica, responde bem alto em baixo português: "vai pra puta que o pariu".

Anda se urinando e nem percebe.

E ainda por cima bebe. E baba. E fede.

Não tem ninguém. Foi orgulhoso e egoísta, queria guardar dinheiro pra viajar e fazer festa com a mulherada. Era chegado em baralho, sinuca, cigarrinho, cervejinha, rabo de galo, wacholder... Sempre foi forte pra bebida.

Aos cinquenta e três teve um derrame. Ficou surdo de um ouvido e falando mole.

Mudou-se pro asilo porque precisava de ajuda para comer e se lavar. O Alzheimer o fazia esquecer onde escondia o dinheiro da aposentadoria. Roubava-lhe o enfermeiro escroque.

Seu mal era de Parkinson. Tremia e balançava o queixo, às vezes caía a dentadura.

Deprimido, um dia tentou se matar pulando da sacada do segundo andar.

Ficou cego e paralítico.

Por:

Nelson Emerson




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