Noite entre embriagados e alcovas, no limiar das drogas e sombras cotidianas. Carro entulhado de alcoolizados cortando as avenidas principais da cidade. O motorista localiza algum antigo amigo se arrastando na calçada de madrugada silenciosa e bar longínquo. O carro se aproxima e para ao lado da majestosa figura.
- Opa!
- E aí, rapaziada... Tudo, tudo...
- Rolando de bêbado...
- Beleza?
- Tranqüilo.
O homem de roupas um tanto sujas e camisa de dois botões abertos balbucia, canta, dança, todos riem, balbucia, canta e dança. Alguém dentro do carro se impacienta com o proeminente espetáculo e dirige-se ao encachaçado .
- Ah, vá se ferrar!
- O que? O que? Você tá me chamando de vai se ferrar?
*
Carro do pai. Filho, pode ir, mas traga o carro do jeito que você está levando. Ok, trazer o carro do jeito que estou levando. O rumo é definido: casa de amigos e companhia de elementos tóxicos variados. Música berrante, alguns estranhos, mulheres exalando carne, geladeira de cores etílicas variadas, mesa decorada com carreiras de giz, canudos e seringas adequadamente recomendadas por médicos.
Alguém está preocupado com alguém.
- Cara, cara...
Tapa no ombro, empurrões leves.
- Cara, cara... Tudo bem?
- ...
- Cara, cara...
- Trazer...
- O que?
- Trazer o carro do jeito que estou levando...
- Minha nossa...
- Trazer o carro do jeito que estou levando, trazer o carro do jeito que estou levando, trazer o carro do jeito que estou levando...
*
A primeira mulher foi como uma chuva torrencial no cimento fresco. Planos eternos, futuro glorioso. Decidiu logo na primeira semana: o nosso amor nunca terá fim.
Num dia breve algo mudou. A mulher estava muito estranha, perturbada como se as vésperas de um degelo.
- Quero terminar tudo.
- O que?
- Acabou.
- Não acabou.
- Acabou sim.
- Você tem outro, né?
- Não, não é isso. Só quero dizer que acabou.
- Você tem outro...
Naquela tarde um turbilhão parecia consumir o que restava de razão e nunca havia sentido tamanha fenda carregando-o pra baixo. Foi até o armário do pai e resolveu sair e transpassar a chuva até a casa da amada. Chamou no portão, ela veio como uma pintura renascentista fria. O que se passou a seguir foi como uma literatura romântica macabra: disparou um tiro na cabeça da amada e outro tiro na própria cabeça.
Estava decidido que seu amor nunca teria fim.
por:
Daniel Zanella

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