domingo, 8 de fevereiro de 2009

Short Cuts de Álcool, Sangue e Pó

Noite entre embriagados e alcovas, no limiar das drogas e sombras cotidianas. Carro entulhado de alcoolizados cortando as avenidas principais da cidade. O motorista localiza algum antigo amigo se arrastando na calçada de madrugada silenciosa e bar longínquo. O carro se aproxima e para ao lado da majestosa figura.

- Opa!

- E aí, rapaziada... Tudo, tudo...

- Rolando de bêbado...

- Beleza?

- Tranqüilo.

O homem de roupas um tanto sujas e camisa de dois botões abertos balbucia, canta, dança, todos riem, balbucia, canta e dança. Alguém dentro do carro se impacienta com o proeminente espetáculo e dirige-se ao encachaçado .

- Ah, vá se ferrar!

- O que? O que? Você tá me chamando de vai se ferrar?

*

Carro do pai. Filho, pode ir, mas traga o carro do jeito que você está levando. Ok, trazer o carro do jeito que estou levando. O rumo é definido: casa de amigos e companhia de elementos tóxicos variados. Música berrante, alguns estranhos, mulheres exalando carne, geladeira de cores etílicas variadas, mesa decorada com carreiras de giz, canudos e seringas adequadamente recomendadas por médicos.

Alguém está preocupado com alguém.

- Cara, cara...

Tapa no ombro, empurrões leves.

- Cara, cara... Tudo bem?

- ...

- Cara, cara...

- Trazer...

- O que?

- Trazer o carro do jeito que estou levando...

- Minha nossa...

- Trazer o carro do jeito que estou levando, trazer o carro do jeito que estou levando, trazer o carro do jeito que estou levando...

*

A primeira mulher foi como uma chuva torrencial no cimento fresco. Planos eternos, futuro glorioso. Decidiu logo na primeira semana: o nosso amor nunca terá fim.

Num dia breve algo mudou. A mulher estava muito estranha, perturbada como se as vésperas de um degelo.

- Quero terminar tudo.

- O que?

- Acabou.

- Não acabou.

- Acabou sim.

- Você tem outro, né?

- Não, não é isso. Só quero dizer que acabou.

- Você tem outro...

Naquela tarde um turbilhão parecia consumir o que restava de razão e nunca havia sentido tamanha fenda carregando-o pra baixo. Foi até o armário do pai e resolveu sair e transpassar a chuva até a casa da amada. Chamou no portão, ela veio como uma pintura renascentista fria. O que se passou a seguir foi como uma literatura romântica macabra: disparou um tiro na cabeça da amada e outro tiro na própria cabeça.

Estava decidido que seu amor nunca teria fim.

por:

Daniel Zanella

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