
Onças localiza-se a um bom tanto de quilômetros da zona urbana de Araucária. Quem almeja conhecer um pouco mais sobre estradas empoeiradas, encruzilhadas sofisticadas e casas plantadas no meio do nada, pode fartar-se do obscuro vilarejo até os olhos cansarem do abandono.
Em Onças uma professora aposentada arranjou um espaço desocupado de um mercado e montou uma biblioteca – partindo do próprio acervo caseiro – numa curva cinzenta entre árvores muito altas e tucanos exibidos.
E num sábado de brilho discreto, chuva consistente e emaranhada na temporada de frio e agasalhos sobressalentes, a biblioteca da professora aposentada se prepara para receber uma espécie de comitiva citadina integrante de um projeto público de incentivo às atividades culturais – kombi lotada, carro-carregador de banheiros populares e um sem número de carros de jornalistas enfadonhos. Tem contação de história, oferecimento de maquiagem, atividades circenses, distribuição de doces e materiais de produção artística como papel, lápis e giz de cera.
As crianças são as que mais prestigiam a biblioteca de livros livremente catalogados e começam a se aprontar no chão cimentado pra ouvir as histórias nesse dia sacrossanto de visitas ilustres. São de todos os tipos de ausências e bem remelentas, as crianças. O primeiro batalhão de crianças que se senta – desenhos de guache na face – transpira aquela aura de casca carcomida, abandono primário e decisivo. Forram-se de balas, pirulitos e algodão-doce – que sai de uma máquina pitoresca com o poder de fascinar os diabos de trapo.
Até que são recatadas as crianças, como se estivessem sendo invadidas em seu zoológico por criaturas desconhecidas de sapatos. A contadora de história debate-se para que as crianças batam palmas com mais engenho, cantem com maior desenvolvimento. Uma câmera de filmagem de uma emissora de tevê da capital acaba por destruir qualquer plano de interação entre crianças e educadores: imaginar-se diante de um espelho em movimento é demais aos seres oriundos da lentidão diária.
A chuva persistente atrapalha consideravelmente os planos da trupe circense – que se apresenta por pouco tempo no relento. As crianças se acotovelam na beira do palco improvisado recebendo de bom grado os folículos de chuva na cabeça – o que lhes dá uma aparência alucinada de algum livro-catástrofe de Saramago. O palhaço é obrigado a interromper os números por causa do mau tempo – ou só porque quis interromper mesmo – e a linda menina de perna-de-pau e sorriso gracioso pode finalmente entrar na fila do algodão-doce.
O menino de treze anos que ganhou o concurso promovido pela bibliotecária-proprietária alega ter lido cinquenta livros em sessenta dias. Peço que me indique. O Pequeno Príncipe, A Lenda do Besouro-Verde, um livro surrado de uma tal de Stella Carr, Os Miseráveis, Stanislaw Ponte Preta, entre outros títulos de surpreendente irregularidade. Diz que prefere ler o livro e assistir o filme depois e que ler é viajar para outros mundos – os clichês ignoram as distâncias geográficas e são os verdadeiros solventes universais.
Ao final da tarde cansativa – e só chove, chove, chove, diria um cantor pré-adolescente – a trupe da cidade senta-se pra comer algo sem açúcar. As crianças passeiam livremente na chuva agora rala com suas coleções de palitos de algodão-doce. Contam palitos entre si pra ver quem comeu mais. O açúcar no rosto e nos cabelos aproxima os campeões. As roupas andrajosas, marrons, chinelos maiores que os pés e rostos marcados de tons pálidos tornam qualquer reunião infantil um encontro pestilento de vapores indefinidos, braços finos e barrigas audaciosas – se nunca cheiraram bem, não seremos nós os que desorganizam o olfato local?
As crianças fedem consideravelmente e passeiam a procura de novas substâncias edulcoradas. Avistam um refrigerante solitário numa mesa branca. O maior do grupo se aproxima da mesa. Volta. Ordena que alguém rapte o refrigerante. Ninguém está tomando. Uma menininha morena, desconfio que não fale, nariz achatado e mancha enorme na bochecha direita observa o material, caminha tranquilamente até a mesa, pega a latinha, entrega ao líder da quadrilha e todos iniciam imediatamente uma correria eufórica de furto bem-sucedido e perfeitamente engendrado.
As pré-adolescentes não fedem tanto, mas são destituídas de qualquer traço solidário de beleza. Os cabelos enrolados e briguentos, as blusinhas muito curtas que evidenciam gorduras pouco diplomáticas tornam as mocinhas bem providas de feiúra – e brancas daquela palidez dos seres atemorizados do mato. Conversam baixinho e riem canhestramente.As crianças devolvem a latinha de refrigerante vazia – num gesto de desapego. A caravana retorna aos seus respectivos veículos e parte sob os olhares daqueles seres entregues ao próprio escrutínio, soltos como selvagens, amplos dominadores da própria selva esquecida e retalhada pelos livros.
Por Daniel Zanella