segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Serenata de Dois Tiros e Chão

Serenata de Dois Tiros e Chão











Sempre te amei. Sempre. O primeiro dia em que a vi foi um estupor aos meus olhos. Linda, como você era linda. Você andava pelas calçadas movimentadas do centro de Curitiba e eu te observava, feito um coiote à beira do precipício. Nos dias de tempo ruim, o vento batia em seus cabelos dourados e contrastava com seus olhos castanhos, tão cheios de vida e avessos aos rumores sombrios do tempo. Eu te observava e você nem via. Louvava-te e seu altar nem ouvia. Perguntei ao taxista, ao padeiro, ao manobrista: quem era ti? Descobri quando atendeste ao telefone em meio à balbúrdia sonora de meio-dia.

E isso pode ter sido a causa de tudo, minha querida. Ao telefone, você derramava palavras acaloradas enquanto te seguia. Dirigia beijos despudorados enquanto a tarde caía e a sua voz cândida anunciava que me traíras antes mesmo de me conhecer. Por quem se derretias tanto? Por quê?

Foi demais pra mim. Esperei você terminar de reclamar do sinal de sua operadora telefônica e ali mesmo, no outono gelado desse dia qualquer, disparei dois tiros: um no estudante que passava (por que passava?) e outro à queima-roupa em ti. E você tombou. Tombou lentamente, como nos filmes de amor sem armas brancas e traidores.

E agora? Estilhaços de fogo em minha mão e um sangue poente brilhando e jorrando no chão.



Por:

Daniel Zanella



Um comentário: