Investigação Sobre Uma Foto de Sangue
O quarto mal iluminado ainda não dilui a tensão da morte prematura, adentrada em forma de pólvora. O quarto reveste-se de paredes de madeira gasta e velha. Uma cama desarrumada de habitante pragmático. Um abajur brega, um lençol sujo.
Na entrada do quarto, um vulto à beira da cama, um corpo mal estendido de olhos abertos e sangue escorrido, cabeça escorada no próprio chão testemunho. O corpo permanece intacto de seu epílogo recente. Enquanto não se faz notícia, não poderemos especular que ainda não está morto? Está visivelmente morto – mesmo sem o batismo do diagnóstico. O olho estalado, o vapor próprio dos fúnebres, a soltura dos membros ociosos, a atmosfera pesada do que esvai.
O menino entra na casa, informado por vias tortuosas, nervoso, ainda insalubre da trama de contornos torpes. A casa possui duas peças: a sala/cozinha e o quarto. Está a fechar a porta de cadeado frouxo. Está a se dirigir ao quarto de cortina insuficiente. Na entrada do quarto, um vulto à beira da cama, um corpo mal estendido de olhos abertos e sangue escorrido, cabeça escorada no próprio chão testemunho.
O menino se aproxima do corpo e centra seus pés a um palmo do rosto desfigurado. E chora, cabeça baixa, desolado de ser um vivo a espreitar o macabro. A mão esquerda entre as têmporas não deixa de relatar esse certo grau de sinistro romanesco.
Daniel Zanella
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