terça-feira, 28 de outubro de 2008

O Garganta





O Garganta

O médico estranhou quando aquele rebento seco e desarticulado chorou pouco e sangrou muito. Nasceu aqui um ser sem um pedaço da garganta. Aqui, vejam, entre a laringe e o esôfago, apenas um coágulo e oco. Dez dias em observação e um batismo se fez rogado: O Garganta.

Cresceu com sérias dificuldades de admitir sua condição. Enquanto todos diziam de si e tudo do mundo, O Garganta se abstinha de maiores detalhes. Não era a companhia preferida: quem iria querer conversar com alguém sem um pedaço de pescoço?

E tanto tinha pra falar O Garganta. Ninguém pra ouvir. Aos doze anos desconfiou de que só lhe sobrava um destino: alimentar a discórdia entre os que lhe repeliam. E era bom nisso, O Garganta. Não lhe bastava o impulso da infâmia e da vilania de criança mal amada e sem viço. Tinha que ser obedecido um plano, tinham que interagir os diversos espetáculos da aleivosia.

Começou a tornar-se onipresente. Viram O Garganta? Está na Itália. Sério? Pensei que estivesse organizando uma festa no sítio. Vejam só O Garganta, hein... Metido em brigas e bem quisto. Escrevendo em jornal e andando com político.

Ninguém sabe o que houve, de fato, com O Garganta. Um dia a cidade acordou e estava lá na praça o nobre mentiroso, morto entre suas flores falsas e alguns cachorros prontos pra rasgarem as cicatrizes de sua traquéia. Sem nenhuma marca, sem nenhum estilo. Morreu pela boca, diria um perspicaz clichê.
Por Daniel Zanella


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