O Garganta
O médico estranhou quando aquele rebento seco e desarticulado chorou pouco e sangrou muito. Nasceu aqui um ser sem um pedaço da garganta. Aqui, vejam, entre a laringe e o esôfago, apenas um coágulo e oco. Dez dias em observação e um batismo se fez rogado: O Garganta.
Cresceu com sérias dificuldades de admitir sua condição. Enquanto todos diziam de si e tudo do mundo, O Garganta se abstinha de maiores detalhes. Não era a companhia preferida: quem iria querer conversar com alguém sem um pedaço de pescoço?
E tanto tinha pra falar O Garganta. Ninguém pra ouvir. Aos doze anos desconfiou de que só lhe sobrava um destino: alimentar a discórdia entre os que lhe repeliam. E era bom nisso, O Garganta. Não lhe bastava o impulso da infâmia e da vilania de criança mal amada e sem viço. Tinha que ser obedecido um plano, tinham que interagir os diversos espetáculos da aleivosia.
Começou a tornar-se onipresente. Viram O Garganta? Está na Itália. Sério? Pensei que estivesse organizando uma festa no sítio. Vejam só O Garganta, hein... Metido em brigas e bem quisto. Escrevendo em jornal e andando com político.
Ninguém sabe o que houve, de fato, com O Garganta. Um dia a cidade acordou e estava lá na praça o nobre mentiroso, morto entre suas flores falsas e alguns cachorros prontos pra rasgarem as cicatrizes de sua traquéia. Sem nenhuma marca, sem nenhum estilo. Morreu pela boca, diria um perspicaz clichê.
Cresceu com sérias dificuldades de admitir sua condição. Enquanto todos diziam de si e tudo do mundo, O Garganta se abstinha de maiores detalhes. Não era a companhia preferida: quem iria querer conversar com alguém sem um pedaço de pescoço?
E tanto tinha pra falar O Garganta. Ninguém pra ouvir. Aos doze anos desconfiou de que só lhe sobrava um destino: alimentar a discórdia entre os que lhe repeliam. E era bom nisso, O Garganta. Não lhe bastava o impulso da infâmia e da vilania de criança mal amada e sem viço. Tinha que ser obedecido um plano, tinham que interagir os diversos espetáculos da aleivosia.
Começou a tornar-se onipresente. Viram O Garganta? Está na Itália. Sério? Pensei que estivesse organizando uma festa no sítio. Vejam só O Garganta, hein... Metido em brigas e bem quisto. Escrevendo em jornal e andando com político.
Ninguém sabe o que houve, de fato, com O Garganta. Um dia a cidade acordou e estava lá na praça o nobre mentiroso, morto entre suas flores falsas e alguns cachorros prontos pra rasgarem as cicatrizes de sua traquéia. Sem nenhuma marca, sem nenhum estilo. Morreu pela boca, diria um perspicaz clichê.
Por Daniel Zanella
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