
O gurizinho saiu de casa – debaixo das asas da mãe e do pai – quando tinha 14 anos. Morava no interior do Brasil. Ele não sabia de nada, não via quase nada. Ali ele não teria nenhuma chance de ganhar dinheiro e ser referência em qualquer profissão que atuasse. Ele poderia trabalhar na mercearia da esquina, fazer barba dos famosos velhinhos daquela cidadezinha de pouco mais de sete mil habitantes, ser um pequeno agricultor – como seu pai foi toda a vida –, vender sorvete nas ruas, enfim, viver monotonamente.
Meteu a cara na cidade grande para trabalhar e terminar os estudos. Conseguiu um cantinho na casa de um tio e por ali ficou. Era honesto e batalhador. Percorreu quase a cidade inteira atrás de serviço e nada. Até que seu tio se lembrou de um grandessíssimo amigo dono de um jornal de grande notoriedade. Uma semana depois o guri já saía de bicicleta entregar jornais no bairro onde morava.
Todo dia era a mesma coisa: chegava de manhãzinha na sede do jornal, pegava um bom tanto do periódico, parava em uma banca, deixava uma quantia e ia para o próximo endereço. Considerava um serviço gostoso, não ficava parado e quando terminava a entrega voltava para a redação ler o jornal e ficar pentelhando os jornalistas e fotógrafos.
Ali ele conheceu todo mundo, desde a faxineira ao editor-chefe, e todos o adoravam. O guri era simples e tinha muita curiosidade sobre as coisas que via ali dentro. Ele mal sabia que aquela curiosidade poderia ser importante para ele.
Certo dia um jornalista que gostava muito do guri chegou ao dono do jornal e perguntou: - onde que arranjaste esse guri? O dono respondeu: - ele é sobrinho de um grande amigo meu. O jornalista achava pouco o serviço para aquele guri. Andar de bicicleta e entregar jornal é tarefa fácil, ainda mais para um jovem. O redator propôs ao chefe de o jovem sair com ele e com os fotógrafos para a produção das matérias e aprender a profissão. Ele disse que o guri perguntava mais que os próprios jornalistas.
No dia seguinte o guri terminara as entregas e fora para a redação. O mesmo jornalista lhe chamou: - venha cá piá. A partir de hoje, após a entrega dos jornais você vai sair comigo e com um fotógrafo para fazer matérias. Vai conhecer melhor a profissão e quem sabe atuar nela um dia, curiosidade sobre as coisas você tem.
Já havia mais de quatro meses que o guri não voltava para a casa dos pais. O trabalho e os estudos tomavam-lhe bom tempo do dia e por enquanto não cogitava em tirar férias, estava muito contente com aquela nova vida. As pessoas que conhecera em tão pouco tempo eram boas e bem influentes. Em conseqüência disso ele também estava começando a ser bem conhecido.
Toda vez que o guri saía com os jornalistas e fotógrafos o que ele mais notava era a ação do fotógrafo. O jovem analisava atentamente como o homem da máquina fazia uma fotografia. Ele chegava perto e perguntava: - porque você tirou foto disso e não daquilo? O da foto respondia: percebe que o contexto é isso aqui e não o que tu pensavas ser.
Quando a foto era publicada noutro dia ele analisava novamente, lia o texto e entendia melhor. O novato não tinha ainda experiência de como fazer a cobertura, mas compreendia quando o trabalho estava feito.
Sua característica parecia, a partir de alguns dias indo a campo, ser fotógrafo. Ele tinha olhar atento aos fatos. Um tempo depois de acompanhar os profissionais ele se interava das pautas para tentar imaginar qual a fotografia que poderia ser publicada.
Não deu outra, pegava a pior câmera do jornal e levava consigo para a casa todos os dias após o trabalho a estudar a máquina. Tinha já algumas dicas dos fotógrafos, mas só a prática levaria à perfeição.
Pouco tempo depois voltou para o interior ver os pais. A felicidade era tamanha, a saudade também. Porém os quinze dias que lá ficou foram de pura monotonia como quando ainda lá morava. Não via a hora de rever os amigos do jornal.
O guri chegou aos dezenove anos e já fotografava para o jornal. Cursava jornalismo e conseguira comprar uma máquina boa. Seus pais e principalmente seu tio se orgulhavam muito dele. As meninas da faculdade também ficavam faceiras em ter ele como amigo. Ele as respeitava muito, mas não perdoava nenhuma. O guri já tinha ficado com todas as amigas do grupo. Fazia sucesso e esse era o motivo de tantas brigas entre elas.
Certo dia de final de ano, já de férias da faculdade e do jornal, o rapaz foi para a casa da família. Ele levou consigo a câmera, como de praxe. Ninguém naquele fim de mundo tinha visto uma máquina fotográfica profissional. A máquina com lente e flash externo ficava grande. Ele convocou toda a família para fazer uma fotografia. Todos leigos do assunto se reuniram. Estavam prontos para a tal foto os 23 membros da família.
O rapaz preparou seu instrumento de trabalho: pôs a lente no corpo da máquina, embutiu o flash, colocou o equipamento em um tripé, armou o disparador com timing, enquadrou toda a família no espaço fotográfico e naquele suspense a família desconfiou do guri. Eles não sabiam direito o que aconteceria. Após apertar o botão, dentro de poucos segundos a máquina registraria toda a família. Ele disse a todos: - fiquem parados. Apertou o botão e saiu correndo em direção da família para sair junto na foto com todos. O medo bateu e toda a família saiu correndo como se estivessem em meio a um tiroteio, prontos pra levar um tiro nas costas. O guri ficou parado a rir de todos. Ele soluçava de tão engraçado que fora a cena. Foi cômico ver os velhinhos e velhinhas, primos, primas, tios, tias, irmãos, todos correndo da máquina como se fosse arma de fogo. Ele chamou todos e mostrou na telinha a foto dele sozinho rindo da família correndo. - Dessa vez ninguém corre, já sabem que minha câmera não é assassina, disse o guri.
Meteu a cara na cidade grande para trabalhar e terminar os estudos. Conseguiu um cantinho na casa de um tio e por ali ficou. Era honesto e batalhador. Percorreu quase a cidade inteira atrás de serviço e nada. Até que seu tio se lembrou de um grandessíssimo amigo dono de um jornal de grande notoriedade. Uma semana depois o guri já saía de bicicleta entregar jornais no bairro onde morava.
Todo dia era a mesma coisa: chegava de manhãzinha na sede do jornal, pegava um bom tanto do periódico, parava em uma banca, deixava uma quantia e ia para o próximo endereço. Considerava um serviço gostoso, não ficava parado e quando terminava a entrega voltava para a redação ler o jornal e ficar pentelhando os jornalistas e fotógrafos.
Ali ele conheceu todo mundo, desde a faxineira ao editor-chefe, e todos o adoravam. O guri era simples e tinha muita curiosidade sobre as coisas que via ali dentro. Ele mal sabia que aquela curiosidade poderia ser importante para ele.
Certo dia um jornalista que gostava muito do guri chegou ao dono do jornal e perguntou: - onde que arranjaste esse guri? O dono respondeu: - ele é sobrinho de um grande amigo meu. O jornalista achava pouco o serviço para aquele guri. Andar de bicicleta e entregar jornal é tarefa fácil, ainda mais para um jovem. O redator propôs ao chefe de o jovem sair com ele e com os fotógrafos para a produção das matérias e aprender a profissão. Ele disse que o guri perguntava mais que os próprios jornalistas.
No dia seguinte o guri terminara as entregas e fora para a redação. O mesmo jornalista lhe chamou: - venha cá piá. A partir de hoje, após a entrega dos jornais você vai sair comigo e com um fotógrafo para fazer matérias. Vai conhecer melhor a profissão e quem sabe atuar nela um dia, curiosidade sobre as coisas você tem.
Já havia mais de quatro meses que o guri não voltava para a casa dos pais. O trabalho e os estudos tomavam-lhe bom tempo do dia e por enquanto não cogitava em tirar férias, estava muito contente com aquela nova vida. As pessoas que conhecera em tão pouco tempo eram boas e bem influentes. Em conseqüência disso ele também estava começando a ser bem conhecido.
Toda vez que o guri saía com os jornalistas e fotógrafos o que ele mais notava era a ação do fotógrafo. O jovem analisava atentamente como o homem da máquina fazia uma fotografia. Ele chegava perto e perguntava: - porque você tirou foto disso e não daquilo? O da foto respondia: percebe que o contexto é isso aqui e não o que tu pensavas ser.
Quando a foto era publicada noutro dia ele analisava novamente, lia o texto e entendia melhor. O novato não tinha ainda experiência de como fazer a cobertura, mas compreendia quando o trabalho estava feito.
Sua característica parecia, a partir de alguns dias indo a campo, ser fotógrafo. Ele tinha olhar atento aos fatos. Um tempo depois de acompanhar os profissionais ele se interava das pautas para tentar imaginar qual a fotografia que poderia ser publicada.
Não deu outra, pegava a pior câmera do jornal e levava consigo para a casa todos os dias após o trabalho a estudar a máquina. Tinha já algumas dicas dos fotógrafos, mas só a prática levaria à perfeição.
Pouco tempo depois voltou para o interior ver os pais. A felicidade era tamanha, a saudade também. Porém os quinze dias que lá ficou foram de pura monotonia como quando ainda lá morava. Não via a hora de rever os amigos do jornal.
O guri chegou aos dezenove anos e já fotografava para o jornal. Cursava jornalismo e conseguira comprar uma máquina boa. Seus pais e principalmente seu tio se orgulhavam muito dele. As meninas da faculdade também ficavam faceiras em ter ele como amigo. Ele as respeitava muito, mas não perdoava nenhuma. O guri já tinha ficado com todas as amigas do grupo. Fazia sucesso e esse era o motivo de tantas brigas entre elas.
Certo dia de final de ano, já de férias da faculdade e do jornal, o rapaz foi para a casa da família. Ele levou consigo a câmera, como de praxe. Ninguém naquele fim de mundo tinha visto uma máquina fotográfica profissional. A máquina com lente e flash externo ficava grande. Ele convocou toda a família para fazer uma fotografia. Todos leigos do assunto se reuniram. Estavam prontos para a tal foto os 23 membros da família.
O rapaz preparou seu instrumento de trabalho: pôs a lente no corpo da máquina, embutiu o flash, colocou o equipamento em um tripé, armou o disparador com timing, enquadrou toda a família no espaço fotográfico e naquele suspense a família desconfiou do guri. Eles não sabiam direito o que aconteceria. Após apertar o botão, dentro de poucos segundos a máquina registraria toda a família. Ele disse a todos: - fiquem parados. Apertou o botão e saiu correndo em direção da família para sair junto na foto com todos. O medo bateu e toda a família saiu correndo como se estivessem em meio a um tiroteio, prontos pra levar um tiro nas costas. O guri ficou parado a rir de todos. Ele soluçava de tão engraçado que fora a cena. Foi cômico ver os velhinhos e velhinhas, primos, primas, tios, tias, irmãos, todos correndo da máquina como se fosse arma de fogo. Ele chamou todos e mostrou na telinha a foto dele sozinho rindo da família correndo. - Dessa vez ninguém corre, já sabem que minha câmera não é assassina, disse o guri.
por:
Victor Amaral
Victor Amaral
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