O cachorro pequeno, filhote, modesto, branco de manchas marrons, desafia a atenção de um grupo de três crianças, que brincam no quintal cheio de pedregulhos, tocos de árvores, cores sujas. O cachorro lépido e ágil percorre em movimentos circulares de duvidosa galhardia o barril em que estão sentadas as crianças, matreiras, jogando pedrinhas nas poças d’água.
As crianças riem, desfeitas do mundo e de obrigações adultas. O tempo não representa qualquer conceito absoluto. O cachorrinho, explorador curioso do meio, encontra um remendo, um trapo no muro do quintal. Talvez um protótipo de cortina, algo que algum dia teve personalidade. As crianças gracejam de uma senhora abundante de sacolas e analisam outros traços de igual fartura. O cachorro briga com o remendo e, vencedor, se vê diante de um buraco, um mundo novo e de virgem horizonte. Num arroubo de sagacidade, o cachorro se lança à rua, sem saber direito pra que lado correr, bobo de sua liberdade.
Uma das crianças percebe a falta do cachorrinho no quintal e sobe no barril, apesar dos protestos veementes da bancada. Lá está esse peralta, na rua. Avisa o maior do grupo, que se arremessa imediata e lentamente ao chão. Dá alguns passos seguros e matemáticos rumo ao muro, pulando o obstáculo com notável atletismo, sem barulho. A criança, esguia, albina, se veste de um cabo de vassoura encostado no muro e se aproxima do cão, ainda vertiginoso de sua competente fuga. O filhote não percebe a aproximação. A criança dá mais alguns passos lentos e desfere dois poderosos golpes, que atingem a cabeça e as pernas do bicho.
Desperto do castigo infringido, o cão corre em disparada, esbravejando ganidos poderosos, difíceis de se imaginar diante da modéstia de seus traços humildes. Enquanto atravesso a rua, as crianças decidem jogar bola. O cão chora num único lamento animal, ocupado de sua lancinante expiação, inconsciente de seu crime, mas provavelmente cônscio de sua absoluta e furiosa dor. O cachorro está escondido e seus gritos ainda podem ser ouvidos após uma quadra de passos tristes. Mal sabia o cão da importância do trapo humano.
por:
Daniel Zanella
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