A minha avó mora sozinha. E é longe daqui. Ela é a raiz viva mais antiga da família. Lembro dela nos dias em que o quebranto me acoberta na noite e a cama parece naufragar num oceano de melancolia. (Flutuo no porão do mar de olhos abertos). A minha avó mora sozinha. Nesses dias em que reflito condições, rumos e sofro de uma dor não identificada, lembro que a minha avó mora sozinha.Eu moro sozinho. A minha casa tem silêncios que reverberam. A geladeira faz um barulho ritmado de coisa velha, gasta e de repente cala completamente, deixando o som dissipado no ar – e sinto minha respiração amedrontada a cada compasso capcioso.
Os quartos de casa são habitados de vazio. O que é a minha casa quando não estou dentro dela? Toda vez que tenho visita é como se minha casa não suportasse tanta vida e as coisas caem sem explicação.
A solidão da minha avó é dela e não a esconde de ninguém. A minha avó sempre foi difícil, de um impedimento relacional que sinto herdar cada vez que o meu nariz resolve sangrar sem razão de ser. A casa da minha avó é muito maior que a minha e, portanto, mais triste. Lembro sempre dela, mas a minha solidão é também só minha e não sobra espaço pra divisão – nunca ligo, nunca choro. Minha avó, tenho por ti um afeto genealógico que não escolhi e sei que reservo pouco espaço do que sou (e mesmo assim com um certo retrogosto). O que conheces de mim é um espectro ou mero apanhado de observações dos poucos tempos vividos?
Não é pra tanto... Moramos um tempo juntos, antes da morte de nosso avô e ainda relembro a sua lealdade diante do câncer que o vitimou – e outras tantas histórias intrincadas que hoje não passam de fragmentos e retalhos do que deve ter acontecido. (Por isso as memórias são nossas mentiras preferidas).
Mas, minha avó, passou-se alguns anos e você está sozinha e eu estou sozinho – e as nossas solidões possuem essências diferentes e, ao mesmo tempo, simétricas.
Sofro desse medo gigantesco de não ser nada e de ver escorrida a minha vida entre meus dedos ansiosos – e a cada dia em que não durmo sinto como se estivesse envelhecendo dentro de uma casa assombrada. E a solidão é apenas mais uma companheira entre tantos relatos ocos – deve ser bem ruim morrer como quem nunca passou.
Você sofre do tempo, minha avó – esse conceito tão amplo e cruel que faz com que muitas vezes nossas noites sejam igualmente intermináveis e os dias infinitamente entediantes. Só que não enxergo o fim ainda, embora eu admita ter certa disposição pra gestos abruptos.
Assim é, minha avó. E seguimos carregando as nossas doenças toda a noite até a cama despovoada de gente e cercada de fantasmas que já nos chamam pelo nome.Boa noite, minha avó.
Por Daniel Zanella
fantástico seu texto, gostei muito.
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