terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Conversa de Bar

Dois amigos conversam na mesa do bar deserto – quatro garrafas vazias ao centro, alguns guardanapos sujos e um tanto de frio. Uma certa consternação companheira de copos espumantes. (Não é simples assim reduzir a espécie humana aos devaneios todos).
- Esse mundo tá perdido.
- Tá.
- Nada mais tem sentido. Nada. Nem as mulheres.
- Que se passa com as mulheres?
- Sei lá. Alguma coisa se perdeu, companheiro. Tem mulher que é mais homem que a gente.
- Verdade. E se tem...
(Gostaria muito, muito de amar uma feia, como diz o poeta clássico e ser havido de pensamentos sublimes. Gostaria até de acordar de um sono amparador, olhar ao lado da cama de casal e, mesmo diante da constatação de que não gosto muito da fase cubista de Pablo Picasso, dizer que a beleza é dispensável quando se ama. Essas coisas todas que dizem os enamorados e os livros de auto-ajuda. E pensar no que as pessoas são por dentro...).
- A cada dia que passa as mulheres me parecem mais algum tipo de carne de açougue gastando dinheiro, um número na prateleira vazia. Uma coisa triste por qual a gente morre.
- Entendo.
- Sabe, dia desses chamei uma vagabunda de vagabunda e deu problema. Você conhece... Meu amigo de tantos tragos, que mundo é esse em que as vagabundas são donas da razão?
- Sinal dos tempos, companheiro.
- Vagabunda...
(Perco toda a profundidade de raciocínio e submetido aos pensamentos pouco elevados, me abato e desmorono. Sou um triste espetáculo. Ao ler Manuel Bandeira na biblioteca pública, fui interrompido quatro vezes)
- Companheiro, pode me dizer... Se trata de uma só, não?
- É. Uma só.
- E é a velha história da mulher que só não convida você pra festa...
- É. Uma só.
Comentário do autor: o autor é o que escreve? Seus personagens repercutem o que pensa? O autor é verdadeiro?
- E é a velha história da mulher que só não convida você pra festa...
- É. Uma só.
- Bem, não sei se vai te ajudar...
- Ajudar no que?
- Deixa pra lá.
- Agora fale.
- Olhe, não leve a mal...
- ...
- Mas você não tá perdendo muita coisa...

Por Daniel Zanella

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