A sobrinha pequena bate na janela. Não vai entrar não? A boneca que acabou de ganhar chora de verdade, ela mostra. Chora de verdade, repete. Sorri de mentira, remói.
Antes de sair do carro abre o porta-luvas e procura alguma coisa, não acha. Esquece. Tira a chave da ignição e a coloca no bolso. Sente o volume dos projéteis. Seis. Agora lembra: a caixa dentro do armário. Resolve entrar.
Sem graça, oferece um "Feliz Natal" de mentira para todos os presentes que, distraídos, sinceramente não retribuem. Talvez um aceno de alguém atrás da mesa, um gemido gutural de uma criança que não existia no ano passado ou um par de sobrancelhas erguidas em forma de "oi", não sabe ao certo, difícil desenhar desdenho. Já estudou isso. Ou inventou? Melhor escrever antes que vire um tumor.
Então repete a tela: O olhar acovardado não fotografa a imagem à sua frente, ele apenas borra as cores e os sons e os cheiros, tornando-os uma coisa só. Essa é sua defesa, é seu escudo para melhor suportar o insuportável. O esforço da memória, ao tentar recobrar o passado, talvez seja uma tentativa de reproduzir essas impressões repetidas vezes até que elas se transformem em lembranças concretas, boas ou ruins, mas tão falsas quanto à própria realidade. Mais um gole de cidra quente, de onde surgiu? Não, não foi ele quem inventou essa teoria. Retórica inverossímil. Passa a desconfiar de suas próprias palavras, mas segue pintor de presentes. Imprecisões à óleo.
O restante da casa é comida e presépio. Gosto de uva-passa nas paredes, o chão ainda grudento. Tantos natais incrustados no mármore. À mesa, serve-se da comida cenográfica e desvia-se dos olhares marginais que o fuzilam. Festa, farsa, forca.
Ouve conversas. Onde ele está? No quarto, passou mal durante a tarde.
Imagina então o pai cheio de tubos colados à boca e à bunda. Imagina os aparelhos sendo desligados. Imagina os desfibriladores. Imagina a encomenda na floricultura: Não, desta vez não quero um buquê.
Na taça vazia, o reflexo irritante do pisca-pisca que enfeita o pinheirinho. Acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, acende-apaga, Feliz-Natal, apaga-Natal, acende-Feliz, apaga-acende, Natal-Feliz, apaga-acende, Natal-Natal, apaga-Fe, apaga-liz. Apaga. Natal. Afaga. Afoga. Apaga.
Planeja contar tudo à mãe, ou insinuar ao irmão, ou simplesmente se calar diante do pai. O medo ainda o estrangula. Teria coragem de seguir em frente com essa insensatez, mesmo após verbalizar aquilo tudo que pede palavra em seu choro? Já não faria sentido. Não faria sentido! Pincela novamente para ficar mais nítido. Tenta calar cada cor que destoa do seu corpo. Mas os natais passados rodopiam no fundo do copo de refrigerante da menininha enquanto a boneca não para de chorar. De verdade, não para. As histórias da velha casa passam correndo por entre suas pernas, puxam a sua calça e depois se escondem atrás dos móveis. Quem sabe dentro do armário.
Antes que enlouqueça, pensa. Sobe para o quarto do irmão e vai direto ao armário. Antes que enlouqueça de vez, repete para afastar a faísca de insanidade. Retira a velha caixa de sapatos. Não é mais o seu armário, é o armário de um filme americano. As fotos dentro da caixa não são suas, são de um personagem de um filme americano. De um filme americano, repete, mas não consegue imaginar. O verbo não se fez carne e nem se fez imagem, só som, só som, só som. Tudo acontece duas vezes. Ele ainda está ali, mãos suadas. Apanha o revólver no fundo da caixa e vai para o quarto do pai.
Não há tubos nem desfibriladores, o velho dorme. O pesadelo está travestido de sonho. Engatilha o revolver assim como viu no filme americano. Essa cena já aconteceu? Encosta a arma na cabeça do velho, que não acorda nem mesmo após o contato com o metal. O cheiro azedo que vem da sua pele é a infância correndo pelo quarto. Da pele de qual dos dois ele vem? Barulhos no corredor, alguém se aproxima. A boneca? Precisa agir antes que seja tarde. As mãos derretendo, desmanchando. Antes que enlouqueça de vez. Antes que. Afasta-se da cama, coloca o cano do revólver na boca, fecha os olhos e dispara. A cena se repete. Coloca o cano do revólver na boca, fecha os olhos e dispara.
A porta abre. É a mãe, veio trazer remédio. Fazendo o quê aí no chão? Nada não, vim ver o pai. Esconde o rosto, seu choro também é de verdade. Esconde a arma na calça. Coitado, até comeu um tantinho de panetone de manhã, mas não adianta, ele vomita tudo. Ela ajeita o travesseiro e apanha a jarra d'água. Ele se esquiva de qualquer resposta, sai do quarto antes que o torpor de alegria que o toma confunda ainda mais a situação. Vomita tudo, o pai vomita tudo, repete sorrido.
Quando chega à sala, boa parte das pessoas já foi embora. O pisca-pisca não pisca. O peru está pela metade, será requentado no almoço de amanhã. Sai. Entra no carro e guarda o revólver no porta-luvas. O gesto se repete, guarda o revólver no porta-luvas. Rói as unhas para se acalmar. Imagina o velório do pai. Imagina o próprio velório. Ao lado do caixão, a família gotejando porquês. Nada. Natal. Nódoas.
A sobrinha pequena bate na janela. Não vai entrar não? A boneca que acabou de ganhar chora de verdade, ela mostra. Chora de verdade, repete. Sorri de mentira, remói.
Por:
Eder Alex
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