Havia um homem que não se lembrava de nada. Por mais que repetisse seus lamentos, nada revivia as luzes de sua memória. Esse homem recebia de maneira integral e alinhada o privilégio de não ter lembranças de sua triste sorte. Era um pobre homem. E o escritor não gostava dele – nutrindo até certa inveja de contornos trágicos. Leitor, um escritor ávido é um escritor que mata – principalmente em datas que se comemoram símbolos sacros.O homem sem passado era um ser sem amplitudes ou visões fabulosas – tomou seu café com a esperança vã de renascer em um só momento esplêndido. Mas não tinha muita certeza disso.- Ainda lembrar-me-ei de tudo. Um dia, sim, um dia.O autor não acreditava conceber alguém que existisse sem a consciência de ser. E resolveu, então, lançar vozes nos caminhos enganosos de seu personagem.- Escute, homem sem passado, cansei de você e essa será a sua história: respira pouco, pouco pensa o homem sem passado. Como é viver sem saber de onde surgiu e qual é o testamento? Quais as violações e atos plebeus? O homem sem passado corre na direção do penhasco e cai vôo livre na vitrine chão.Estoura todo. Fim.O escritor nem se comove. Sempre gostou de aniquilar seus personagens. Ainda mais de narrar gestos de gente que só se lembra de morrer sob as luzes das árvores falsas da estação.Por Daniel Zanella
Nenhum comentário:
Postar um comentário