quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ensaio Suicida

A tristeza não é uma visita querida, mas hoje abro as portas de casa pra seus signos e pra você, minha amiga, que se foi e deixou só um rastro de dramas e a nuvem seca da partida. Conhecemo-nos quando atingimos simultaneamente a tal maioridade oficial. Foi você quem soube de todas as minhas primeiras experiências – principalmente as vergonhosas e inebriantes. Fomos o que amigos jovens são e certa vez você me disse que não haveria razão pra viver muito diante do impasse que é conviver com o outro. Que seria de nós a partir do ocaso, das rugas e das manias exacerbadas? Ontem a cidade acordou sem viço e alguma coisa estalou na madrugada, que nunca mais será a mesma. Você se matou com um tiro no olho esquerdo – de um modo que me deixou particularmente arrefecido. Ninguém até agora compreendeu. A casa amanheceu cercada de vizinhos aparvalhados, curiosos pedantes, parentes neuróticos, cachorros sensibilizados, todos surpresos de tal veredicto e respirando o ar viscoso de tragédia perpétua. Creio que nunca conseguirei entender, mas faço suspeita de ordem temática, porque, minha amiga, este mundo nunca te pertenceu (lembra do dia em que me disseste que viver era uma espécie de enfado diário e fila de banco?). Eu sabia, minha amiga, que você era capaz de fazer uso desse teatro bélico, mas não pensei que seria tão cedo – fico aqui ruminando a sua partida sem nenhum escrito, só o ato supremo. Você deve bem saber que assim morreu uma parte de mim (e que não pude ver seu rosto estourado no caixão). Acho que você nunca esteve viva mesmo e você deve bem saber que assim morreu uma parte de mim. Acho que você nunca esteve viva mesmo e você deve bem saber que assim morreu uma parte de mim.
Hoje não consigo dormir. E penso: durante essa confusa trajetória humana, quantas letras já não foram sangradas por causa desse simples dilema? Hoje não consigo dormir.
Ponho-me a escrever com dedos temerários. A escuridão facilita a incursão aos locais mais recônditos, a escuridão está conversando comigo. Entre segredos de alcova e drogas conscientes, constato sem nenhuma glória: fui sempre um mau-caráter. Um grande mau-caráter. Ninguém no mundo me superou em vilania e repulsa. E sinto que devo uma explicação póstuma: utilizei todos ao meu redor pra que eu pudesse exercer meus talentos vis. À minha família dei apenas centelhas do que me entregaram e cuspi o que não gostei. Ah, minha mãe, onde foi que seu filho perdeu a vontade de viver?
Aos amigos protegi com pregos e dedo em riste. Só devolvi o que me trouxe lucro. Por isso fugi da ignorância – mal consegui disfarçar o desprezo das conveniências todas. Mas quando tentei, fui muito bem. Amigas, se tive, foi porque não conheceram minha essência ou foram homens travestidos e arranjos de interesses escusos. Mulheres, porque se deixaram enganar por algumas palavras que cheiravam bem e deixaram-me entrar nas suas vidas? Foi de lá que retirei todos os seus fantasmas – toda noite eles dançavam cobertos na sala. (Por isso quando amanhecia a dor só sobravam alguns rasgos e ódios intensos de papel passado).
Para alguns poucos, existi, já que presenciaram o quanto fui torpe e inerte, o quanto desperdicei minha vida com palavras vazias e bebidas amargas, sonhos falidos e complexos inventados. Nenhuma paixão existiu, nenhum amor acabou e sempre pensei assim porque foi um eterno reconforto e tudo pode bem não ter passado de imagens que me serviram de conclusão – mulheres usadas como cobaias de experimentos e envenenadas com elementos tóxicos carregados a tiracolo.
Manter-se são. O que pra muitos se configurava como um mero exercício de respiração e acordar no horário adequado, pra mim foi motivo de constante luta. Manter-se são. Hoje percebo que vivi só o que me foi dado de graça no caixa do supermercado e a sorte que algum dia me sorriu tinha contornos demoníacos e um ar sarcástico breve. Nada consegui, em nada estive e, portanto, passo sem deixar nenhuma marca na rua. Só uns cães se dignificavam a me observar nas noites alcoolizadas. Quantos irão ao meu enterro? Deixei apenas alguns escritos tortos que a posteridade tratará de sentenciar seu devido anonimato. Fui uma vida que não foi e que se acabou com alguma dose de ironia característica. Até pra morrer tive que encenar um teatro pobre.
Ainda não morri inteiro, minha amiga, mas achei que a sua partida merecia algumas palavras suicidas que fizessem jus a sua memória e que lembrassem quantas vezes você se quebrou nessas esquinas até esse dia derradeiro da despedida.
Sempre seu


por:
Daniel Zanella

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